quinta-feira, 11 de novembro de 2010

2 - UMA LINDA ESTRELA



         Cada dia é um novo dia, o futuro pode trazer muitas surpresas. O tempo voava, e com ele, as estações.
            O verão se aproximava forte, e a onda de calor, o sol, seus raios, tudo parecia me recarregar de energia e de ânimo. Os dias mórbidos haviam ficado para trás e tudo vinha embelezado de vida e de esperança. Verão, para mim, combinava com praia e, naquelas férias, decidimos passar quinze dias em Caraguatatuba, litoral paulista, meu primo, Amadeus, e eu.
            A praia é um mar de poesia! Do horizonte infinito, onde água e céu confundem-se num esplendor de amplitude, as ondas vinham beijar a praia, e a brisa que refrescava meu corpo fazia as palmeiras bailarem num som peculiar. Eu estava em harmonia com a natureza e me  sentia parte de tudo aquilo. Meus pés afundavam-se na areia que parecia me dizer “Fique comigo!”. Era um cenário perfeito para a paz e para o amor. Sentado na areia, contemplava tanta beleza e, sonhando, dava asas à minha poesia. Não tinha papel, estava sem meu violão mas, jogado ali, um palito de picolé e a vastidão da areia. A praia estava quase deserta, o sol se despedia do mar. Agachei-me  e escrevi:


Sinto a calma que está no ar
A distância é curta para se percorrer.
Sem medo do desconhecido,
Revelo os selos da recompensa.

Não sou um alvo, porém atiram em mim
Mas posso ser a pedra que quebra sua janela
Para levar meu recado de amor.

Não me importo se o acaso cair em mim
Já construí minha fortaleza
Só faltam as flores para completar meu jardim.

            Subi nas pedras, de onde poderia ver toda a praia. Os reflexos do sol deram seu último brilho de luz sobre minha poesia, escrita em letras gigantes. Porém, em menos de dez minutos, as ondas chegaram e a levaram consigo mar adentro. Só ficou a mensagem gravada em meu coração, onde água nenhuma poderia alcançar.
            Amadeus gostava muito de sair à noite. Geralmente, eu já estava muito cansado e não tinha ânimo para as noitadas à beira-mar. Mas, um dia, resolvi sair com ele.
            Vi uma multidão, gente de todos os tipos, de todas as raças. Uma confusão de músicas ensurdecedoras machucavam os meus ouvidos. Como a cultura brasileira havia se rebaixado! Aquele calçadão me horrorizou e eu, já por natureza um tanto insociável, não agüentei ficar lá. A ordem que deve existir para que o homem viva bem com seu semelhante estava longe de reinar naquele lugar.
            Retirei-me daquela depravação urbana e resolvi voltar, seguindo a praia, para a casa onde estava hospedado. A lua estava linda, as estrelas cintilavam no céu. Já longe do calçadão, o som das ondas era a única melodia em meus ouvidos.
            Como voltava a pé, e o caminho para a casa era longe, cerca de duas horas de caminhada, na metade do percurso parei para descansar. A melodia do mar parecia me acompanhar. O lugar estava completamente deserto. Sentei-me em uma mureta que dava de frente ao mar, onde poderia contemplar as estrelas. Vi uma luz fulgurante que atravessava o céu e que caía, em direção a um ponto longínquo, no mar. A lua brilhava na areia, como o sol havia brilhado em minha poesia. E, de repente, como uma aparição, meio oculta do reflexo do luar, vi uma silhueta, sentada, sozinha, bem perto da água.
            Tive medo de me aproximar – ela poderia se assustar – afinal, estava tudo deserto, e é na solidão que mora o medo. Fiquei observando de longe, percebi que o som das ondas misturava-se ao som de suas lágrimas.
            Súbito ela se levantou e correu em direção às águas negras. Vi cada gesto, tudo aconteceu em poucos segundos. Sem pensar duas vezes, corri também e me atirei ao mar. Ela, à princípio, debateu-se, mas depois, resignada e, certamente exausta, deixou-se levar até a praia. Enrolei-a na blusa que tirara antes de entrar na água e, com o calor de meu abraço, esquentei seu corpo que tremia, num misto de frio e de soluços.Ela olhou para mim e, como que não acreditando, perguntou-me se eu era um anjo. Que milagre era aquele? Aparecera na hora certa e no lugar certo. Meu coração batia forte e eu a segurava como quem segura um cristal frágil. Perguntava-me o que estava acontecendo, mas a resposta era tão desconhecida quanto aquele encontro inesperado. Parecia um conto de fadas totalmente real.
            Talvez aquele encontro sobrenatural tenha sido a razão de nossa amizade instantânea. Talvez fosse apenas o acaso, que unira mais dois corações. De qualquer forma, depois de algum tempo, já conversávamos como se fôssemos dois velhos amigos. Juntos, sentados na areia, vimos o sol nascer. Eu não a conhecia direito, nem ela a mim, mas uma atmosfera de segurança nos unia. E então lhe perguntei: “Mas, por quê?” Ela, naquele momento, baixando os olhos tristes, confessou: “O amor não existe” .
            Falamos sobre várias coisas, mas aquelas palavras não saíram de minha cabeça: “O amor não existe”. Levei-a para a sua casa e prometi que voltaria.
            O sol já esquentava a cidade. Meu corpo estava quebrado, mas ainda pairava um clima de sonho, eu não conseguia coordenar direito o que acontecera, mas o sorriso de Lucy e suas palavras provavam-me que tudo fora real.
            Chegando em casa encontrei Amadeus dormindo profundamente. Sorri para mim mesmo e pensei que minha noitada havia sido mais emocionante do que a dele. Antes de me deitar, escrevi em um pedaço de papel: “Será que isso é amor?”.
            Quando acordei já se passava de três horas da tarde, mal comi alguma coisa e corri para a casa de Lucy. Antes mesmo de bater palmas eu a vi sair de sua casa, sorrindo, aquele sorriso que me acompanha até hoje. Seu rosto era meigo, delicado. Havia um quê de puro que a ornava, tornando-a ainda mais bela em seu traje simples – blusinha branca e saia colorida. Seu sorriso era como o sol da manhã, num céu sem nuvens, que brilha e alegra todo o mundo. Nem parecia a mesma pessoa que encontrara no dia anterior, tão desiludida. Entrei em sua casa e conheci seus pais e irmãos. Era uma família tão simpática, parecia bem-estruturada, o que comprova que as crises não respeitam classe social, gênero, credo ou idade.
            O interessante é que muitos afirmam que o amor surge como uma paixão, um fogo ardente e consumidor. Mas, para mim, apareceu na forma de um sorriso doce e eterno. Através dele, o amor mostrou a sua face mais viva e intensa.
            Naquele mesmo dia, quando Lucy mostrava-me sua casa, vi, em cima de uma mesa, em seu quarto, um guardanapo, com o seguinte escrito: “Sim, existe amor...”
            Passamos muitos dias maravilhosos, quase todos os finais de semana eu ia para Caraguatatuba a fim de ver Lucy. Ela às vezes ia me visitar e passava alguns dias comigo, eram dias especiais, cheios de alegria.
            Parecia que fôramos feitos um para o outro. Naquela época, no meu coração, não havia espaço para lágrimas. Havia uma grande necessidade de um estar perto do outro, era como se um fosse a canção e o outro a melodia. Finalmente, minha vida tinha algum sentido. Minhas poesias eram só para ela, minha vã paranóia já eram águas passadas, afinal,  tudo agora era lindo e completo.
Gostava do seu jeito de ser, ela me compreendia e me apoiava. Fazíamos planos, e o futuro me parecia colorido e promissor. Nossa vida estava quase completa, eu sabia que a amava. Parecia uma eternidade que estávamos juntos e acreditava ter chegado o momento de revelar-lhe meus sentimentos mais profundos.
            Todavia nosso amor durou apenas 350 dias. Não houve causa de desamor, mas parecia que uma força poderosa e destruidora perseguia o meu destino. Lembro-me como hoje o dia em que a encontrei sem o seu lindo sorriso. Lucy me chamou para um passeio, e fomos andando até a Prainha, caminhamos a pequena trilha que nos levava a Pedra do Jacaré, e ali sentamos e contemplamos a paisagem. Um silêncio devastador pairava no ar. Percebi que não conseguíamos ser nós mesmos e tinha medo de perguntar o que estava acontecendo. Lucy rompeu a quietude e disse-me:

- Belth, faz quase um ano que você apareceu em minha vida – eu olhei para os seus olhos e temi. Lucy continuou – Parece que nossos caminhos se cruzaram e que a partir desse dia, passamos a andar juntos – Concordei com ela, e deixei-a continuar – Mas eu descobri que há vários caminhos, e que as vezes não podemos seguir juntos – discordei plenamente.
- Se há um caminho eu posso seguir – eu disse a ela –  Não diga que seu caminho aponta para outro lugar.
- Há caminhos que nos levam contra a nossa vontade, caminhos para uma pessoa só andar. Entenda, eu não quero desviar do nosso caminho, mas não posso levá-lo.
- Somente a morte pode me desviar do seu caminho – Eu disse enfurecido.

            Malditas palavras. Eu vi os olhos de Lucy se fecharem, suas mãos tamparam a sua boca e o som abafado de seu choro confirmava o meu medo. Eu não sabia o que fazer, todas as minhas crenças naquele momento estava sobre um fio. Tive medo de perguntar o que estava obvio aos meus olhos. Ela me disse em prantos:

- Eu já não posso fazer mais nada, somente aproveitar cada segundo que me resta. Estou doente e acho que não posso acreditar em milagres, estou fraca para isso.

            Olhei para ela, e o véu do amor despencou de meus olhos. Eu a vi magra e frágil, seu rosto não tinha mais o brilho de outrora. Eu não sabia o que dizer e nem como consolá-la. Em meu coração havia uma egoísta pergunta: Como vou ficar sem ela? A única coisa que pude fazer foi abraçá-la e chorar com ela.
            Passamos muito tempo chorando, o dia passou e uma noite estrelada tornou parte da paisagem. Estávamos deitados na pedra, olhando para o céu e ela novamente rompeu o silêncio:

- Belth, olhe para o caçador – ela me apontou a constelação de Orion – ele sempre estará olhando para o Touro. Foi assim que você me ensinou. Faça o mesmo. Lembre-se de mim.

            Novamente fui traído pela vida, a morte prevaleceu. Estava tudo tão perfeito! Desde nosso encontro mágico, eu devia ter percebido que era só um sonho maravilhoso. Éramos tão amigos, por que o destino sempre tirou de mim tudo o que me era mais precioso? Lucy foi a única que me aceitou do jeito que eu era, que não riu quando lhe mostrei um pouco de mim.
            Sabíamos que o amor nada mais era do que uma infinita amizade, e essa sim, jamais poderia acabar, mas eu queria mais, muito mais.
            A coragem de Lucy nos seus últimos dias foi o que me segurou. Achei que iria enlouquecer. Já havia convivido com a morte antes, mas nunca estamos suficientemente preparados quando ela reaparece.
            A doença foi rápida e traiçoeira. Larguei tudo para ficar ao lado dela. Estávamos no hospital, onde ela já estava internada há seis dias. Eu me sentia mal ao vê-la, não conseguia ser eu mesmo. Ao contemplá-la no leito, alguma coisa me impulsionava a sentir aversão àquela situação. As vezes eu não tinha forças para conversar com ela. Cada olhar de seus olhos cansados destruía um pedacinho de mim.
O que mais me machucava era que a dor que ela sentia era maior do que a minha própria dor, e o pior de tudo era que eu não podia fazer nada para mudar aquela situação. Eu me sentia pequeno neste enorme mundo. Eu a via indo embora, devagar, e sua voz se enfraquecia a cada dia, e seu brilho de outrora era cada segundo mais opaco.
Naquele último dia, um olhar de medo me deu as boas vindas. Eu pensava comigo mesmo: “Nada pode me separar de você...” Mas eu sabia que isso não era verdade. Sentado ao seu lado, soluçava:

- Não pode ser assim que a vida funciona, nós éramos um, eu não vivo sem você! - Implorando, dizia-lhe - Não vá, eu preciso tanto de você! - Olhamo-nos demoradamente, eu percebi que minhas palavras não tinham o poder de salvar sua vida. No fundo, eu sabia que aquele seria o nosso último momento juntos. Não sabia o que mais dizer, meus olhos denunciavam o que estava sentindo, a dor, um antigo fantasma, voltava a me assombrar. Agarrava suas mãos, como se assim pudesse mantê-la comigo por mais tempo, não era justo que tudo terminasse daquele jeito! Sussurrei em seu ouvido:

- Lucy, você sempre será a mulher de minha vida, eu te amo! – Mas era tarde demais, ela já se fora, e minha declaração de amor ficou no ar, assim como o nosso primeiro beijo, no entanto, eu tive a sensação de ter sido correspondido. Palavras que nunca ousei dizer brotaram naquele momento, era como se ela ainda pudesse me escutar e, com seu lindo sorriso, me dizer o que eu tanto sonhava ouvir: “Eu também te amo!” Porém, tive que lhe dizer adeus, e minha angústia não condizia com a linda noite que se aproximava. Sentia-me perdido no mundo, só, desamparado, como um recém-nascido.
            Não sabia o que fazer, nem aonde ir. Andei por horas a fio na praia, sem rumo, como se aquilo pudesse amenizar minha dor, que parecia eterna. Gritava para o vento: “Por quê? Por que ela tinha que ir embora?” Mas a única resposta era a canção do mar.
Tentei me concentrar em outras atividades, mas a perda fora grande demais para mim. E, entre lágrimas, escrevi para Lucy:

Lindo

A lua sorriu para mim,
Em pleno mar, com estrelas
Em cada brilho,
Eram dias perfeitos.

Quando olhei para o céu,
Escolhi uma estrela para mim
E quando vem a saudade,
Vejo seu sorriso
E a força que me deu
Na esperança de saber
Que sempre em minha vida
Ao olhar o céu, à noite,
Eu vejo você.

Ainda me lembro de você
Quando vi o que era amor
Era forte e verdadeiro
Tudo feito para sonhar.

Foi na praia contando estrelas
Construí o nosso lar
Eram castelos de areia
Que as ondas vinham  derrubar
Fomos apenas crianças
Brincando de amar.     

Quando olho para o céu,
Vejo a estrela que escolhi
E quando vem a saudade,
Vejo seu sorriso
E a força que me deu
Na esperança de saber
Que sempre em minha vida
Ao olhar o céu, à noite,
Eu vejo você.

            Olhava para o céu e me lembrava de minha Lucy, a dor me consumia. Meus olhos estavam constantemente marejados de lágrimas, a ferida aberta parecia nunca querer sarar. Andava como um zumbi, vegetava, sem forças para viver. Tudo parecia tão monótono, minha voz fora-se embora. Não tinha com quem conversar, não tinha com quem chorar. E, novamente, pelos meus versos, fazia minha confissão:


Você olhou para mim,
Não sei o que dizer
Você sorriu pra mim,
Não sei o que  fazer.

Meu coração se consome
A saudade me atormenta
Esta noite não dormi
Esperando por você.

Mataram meus queridos
Mataram a minha vida
Senti falta de mim
Senti falta de você

Quem disse que o amor não dói?
Perto ou longe sempre dói
No vazio do amor,
Minha  vida não tem valor.

Quatro estações passaram por mim, enxugando minhas lágrimas. Mas a dor permaneceu em meu coração e eu pensava que nele só Lucy poderia morar.
Nunca haveria outra igual a ela. Eu conhecera o amor – ele existia, mesmo que  agora só na forma de uma memória.

Um comentário:

  1. Olá Daniel,adorei suas escritas são lindas e com muito sentimento .
    Daniel, coloquei algumas receitas suas em meu blog
    dando-lhe crédito claro.Agora estou pensando em colocar uma de suas escritas por lá será que posso...
    obrigada abraços...

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