quinta-feira, 11 de novembro de 2010

4 – FRENTE A FRENTE COM O SUCESSO



            Naquela noite, voltei para casa pensativo.Deitado na cama, não conseguia dormir – a cabeça trabalhava sem parar, fazendo planos, formulando hipóteses, criando castelos no ar. Mas as incertezas e o medo de tentar algo novo sombreavam meu coração, como se quisessem me relembrar de que existiam muitos “ses” e “poréns”. Mas a proposta era tentadora: era uma oportunidade singular, o sonho de todo cantor e compositor! Poderíamos ficar famosos, os cifrões apareciam dançando em minha imaginação, atraentes, faiscantes.
            Logo na manhã seguinte, Petrus veio à minha casa. Pela expressão estampada em seu rosto, parecia que também não tinha dormido muito bem. Sentamo-nos na varanda e conversamos horas a fio, analisando as vantagens e as desvantagens. Por fim, decidimos arriscar.
            Não foi fácil decidir. Havia alegria, mas ao mesmo tempo, tristeza. Liguei para o Sr. Boanerges, o dono da gravadora e, em duas semanas, já estávamos assinando o contrato.
            Resolvi não me desfazer de nada, apenas tranquei minha casa, deixei tudo como estava, pois ainda esperava retornar à minha amada cidade. Petrus despediu-se de seu irmão, pois o resto de sua família não estava mais lá  e, naquele mês de março, partimos esperançosos para São Paulo.
            Com o dinheiro que recebemos adiantado, alugamos um apartamento e compramos o necessário para nós dois, afinal, iríamos compartilhar nosso novo lar, pelo menos naquela fase inicial de nossa carreira. Sabíamos que tínhamos muito trabalho pela frente, precisávamos tornar nosso nome conhecido, investir em nossas canções, e entrar de corpo e alma naquela aventura.
            Todas as manhãs íamos ao estúdio para acelerar os preparativos das gravações. Com muito custo, convencemos Sr Boanerges a contratar uma banda profissional. Queríamos continuar só nós dois, com a banda apenas para as gravações e os shows. Nós dois éramos um par perfeito, não queríamos mais gente palpitando no que era nosso. O problema do nome da banda também foi resolvido. Uma rádio da cidade conseguira uma cópia daquela fita cassete que havíamos gravado um pouco antes de dezembro daquele ano, a pedido dos nossos fãs do Quiosque do Pesqueiro. Aquela fita apresentava o nome “Aldebaran” e, como nossa fama já repercutia com esse nome, mesmo antes de termos gravado nosso primeiro disco, era sensato mantê-lo, para que não houvesse nenhuma confusão.
            Em virtude disso, Sr Boanerges queria apressar o máximo possível as gravações, para substituir as versões piratas. Já tínhamos um baterista, um guitarrista e um baixista. Petrus e eu nos revezaríamos no vocal, com o violão, além do teclado, que era a especialidade de Petrus.
            Começamos a organizar o repertório, mas, antes de qualquer coisa, substituímos a versão pirata de “É tão fácil sonhar”, já conhecida através da rádio. Soubemos por terceiros que havia muitas pessoas curiosas para nos conhecer, afinal, a música “É tão fácil sonhar...” era um sucesso, mas não apareceríamos em público até que a gravação do nosso primeiro disco terminasse. Passávamos o dia no estúdio, ensaiando, ensaiando. Queria um trabalho perfeito, eu sempre fui meio meticuloso com minhas coisas.
            O repertório ficou assim: 1) “É assim”; 2) “Pé Esquerdo”; 3) “Lindo”; 4) “Cultura Brasileira”; 5)”É tão fácil sonhar”; 6) “Somos nós”; 7) “Moda”; 8) “Será algo comum”, 9) “Chuva pra ti”.
            Tínhamos que compor pelo menos mais três músicas para finalizarmos a gravação. É difícil compor quando se está cansado. Nossos dias eram agitados, quando chegávamos no apartamento já estávamos tão cansados que não sobrava nada para a inspiração.Petrus sentia o mesmo. Parece que as lágrimas, a paixão, a solidão, a saudade e a raiva proporcionam grandes inspirações para se escrever. Quando tudo vai muito bem, não há tanta necessidade de compor...
            Porém, não tínhamos escolha: o contrato estipulava doze músicas, e só tínhamos nove. A cobrança forçava minhas idéias a produzir algo artificial, e eu não sábia mais o que fazer. Sr. Boanerges já estava agendando shows para nós, e o desespero começou a tomar conta de mim.
            Estava me sentindo sobrecarregado, e a pressão me fez querer sair para refrescar as idéias. Era uma noite fria, e a primeira vez que punha os pés na rua com o propósito de andar sem rumo, visto que nos últimos três meses havíamos restringido nosso percurso do apartamento ao estúdio, do estúdio ao apartamento.
            Parei em uma praça, sentei-me num banco, o movimento das ruas me entorpecia, os faróis me deixavam tonto. Tentei me desligar de todo aquele barulho. Olhei para o céu, à procura de minha estrela. Mas nada podia ver naquele céu toldado pela poluição, delimitado por arranha-céus. Será que ela ainda estava sorrindo para mim? Havia uma dor em meu peito, uma saudade de tudo que deixara para trás. Voltei a caminhar. Vi na calçada homens deitados no chão, como se este fosse um colchão e tiras de jornal fossem um cobertor. Vi crianças com olhos esbugalhados de fome, que certamente apaziguavam seu vazio num saquinho de cola. Vi mulheres se oferecendo, como se fossem carne num açougue. A dureza da vida apunhalou meu coração. Não podia suportar aquilo. Comecei a formar em minha mente um retrato do país, com imagens que eu não podia aceitar, meus olhos viam a ferida desse povo sofredor. Vi um garoto remexendo o lixo, ele não era um bicho,  estava apenas lutando para viver. Como num relance, vi os animais matando uns aos outros para sobreviverem, e os humanos fazendo o mesmo, pois o trabalho não lhes dava o que comer.
            Parecia tudo um pesadelo, e o que eu mais queria era fugir de tudo aquilo, poder voltar à minha cidade e ouvir o maravilhoso som do mar.
            Ao chegar em casa, escrevi:

Cada gesto é  lembrado em  todos  os momentos,
Coisas que o  passado não nega em meu coração
Seus olhos brilham sempre em minha mente,
E o seu sorriso mora dentro de mim.

Pelo dedo se conhece o gigante
Pelos olhos é que se vê o que se sente
Não esconda o que é belo como antigamente.

Como queria  ver seu rosto nesse momento,
Isso seria somente um sonho
Então, sem demora, não se esconda de mim!
Quero te ver por de trás dessa cortina negra.
           
Petrus também passou parte da noite trabalhando e, quando acordei, vi colado na porta do meu quarto:

Ser amigo é saber o que o outro sente,
Somente no olhar.
Ser amigo é respeitar a covardia do outro,
Dando força para agüentar.
Ser amigo é  não rir de seu choro,
Chorando com suas alegrias
Entender que tudo é pouco e que o pouco é muito.

Ser amigo é indagar para entender,
Por que a vida nos trai?
Olhar para a face amiga e saber
Que somos todos iguais.

Ser amigo é saber que o silêncio
Não é a melhor escolha.
Ser amigo é dizer sim,
Ser amigo é dizer não,
Ser amigo é saber, ou tentar entender, através do amor.

            Pude perceber que eu não era o único com saudades de casa. A vida nova era um mistério que não podíamos prever, mas precisávamos dar uma chance para nossa música, não podíamos desistir antes mesmo de começar.
            De manhã fui à locadora e aluguei três filmes, assistindo-os um após o outro. Era tão relaxante que comecei a fantasiar, como se pudesse participar da emoção assistida. Cheio de inspiração, peguei a caneta e comecei a escrever as três músicas que faltavam para completar nosso repertório:

Última Cruzada         

Talvez se todas as magias estivessem em meu poder,
Eu poderia construir a minha vida.
Você se lembra daquela noite de insônia?
No escuro, eu queria ter a magia de ser outro,
Ao se pensar na vida nem tudo é claro
Existe uma dúvida em um canto de nosso quarto.

É bom, mas não é como antigamente,
Existe uma praça de hienas, e elas me perturbam
As notícias correm rápido neste circo menor.

Vou deixar o relógio correr
Se foi brincadeira, não quero mais
Se for algo maior, voltarei para casa.

As criaturas não são dignas de suas jaulas
Lembro-me da praia, do parque e da fazenda,
Foram pontos de partida,
Para a dor, para a poesia, para a magia.

           
Princípio

Acho que ainda não fomos apresentados,
Eu pensei que o conhecia.
Mas quando você bateu em minha porta, como um furacão,
Foi forte, foi difícil, foi doloroso, e foi bom.
Mas quando você bateu em minha porta como uma brisa,
Senti  falta do furacão que ainda dói.

Acho que ainda não fomos apresentados,
Quando tudo é para ser bom, não há desejo
Nem tudo é claro nesse mundo,
Onde nem tudo é novo.

Acho que ainda não fomos apresentados
Conheci o espírito errado
Quem sabe um dia ele mostre sua face para mim
Obrigado, mas agora não quero sentir.

Situação Sub-zero

Viajar nas estrelas cadentes do oceano,
Pilotar aviões estranhos em planetas americanos,
Novas caravelas nas antigas fontes brasileiras,
Profunda verdade, em situação sub-zero.

Para anúncios de refrigerantes,
As lendas se tornam reais.
Para se ter um emprego certo
Nem sempre se faz o honesto.

É duro ver a dança,
Sempre a cada ano
Sua família tem tantos planos,
Mas não é o que você quer.

É duro ver a dança,
Sempre a cada ano
Queremos de tudo
Mas de tudo não podemos ter.

            À tarde, com tudo pronto, mostrei meu trabalho a Petrus. Ele gostou e logo começou a “musicá-las”, o que era o seu forte. Eu criava, ele musicava. Nosso estilo consistia de ora um ritmo forte, ora uma balada romântica.
            Os dias passavam muito rápido, não tínhamos tempo para analisar o verdadeiro retrato da cidade de São Paulo, aliás, eu nem queria, pois nunca me esquecerei daquela noite, por isso preferia ignorar a realidade  a encarar tanta loucura e destruição.
            Mal podia acreditar: repertório, banda, disco, tudo acertado! Só restava pôr o pé na estrada. Sr. Boanerges marcou, então, um show de estréia para Aldebaran; não havia escolha, teríamos que encarar o público de São Paulo. Nossas músicas já estavam sendo tocadas nas principais rádios da cidade e nosso disco estava tendo uma boa aceitação pelo público paulistano.   
            O dia tão esperado chegou. Passamos a tarde arrumando detalhes do show e dos instrumentos e a noite veio como um relâmpago. O medo de ser rejeitado ainda existia, mas eu tinha que realizar meu sonho de menino, de ser famoso, de tocar e cantar para as pessoas. Meu coração batia forte. Faltavam apenas dez minutos para subirmos ao palco e a casa estava repleta. Podia ouvir os gritos e as risadas das pessoas.
A banda foi a primeira a entrar no palco, depois entramos eu e Petrus. Apresentei-nos e saudei nosso público; recebemos aplausos. O som da bateria iniciou a primeira canção “É assim”. Meu coração quase explodiu de alegria e surpresa ao ver que muitas pessoas nos acompanhavam no refrão. Ao fim dessa primeira música, eu disse: “Há dias que o mundo parece tão complicado, dando a impressão de que acordamos com o “Pé esquerdo”.  Depois dessa música, eu introduzi a seguinte: “No passado me apresentaram o amor, achei que o conhecia, mas percebi que ele era um estranho para mim” - cantamos  “Princípio”. Em seguida foi “Última Cruzada”, Petrus brincou com o público: “Onde eu moro existe uma praça de hienas, e elas riem todas as vezes que eu passo por elas, mas um dia eu cruzei aquela praça com minha espada e aquela foi a “Última Cruzada” ”. Passamos por todo o repertório. Quase no fim do show, Petrus disse: “Vivemos em um mundo onde a maldade nos magoa, onde os bons vão-se embora sem dizer adeus, mas, apesar de tudo, ainda nos resta uma esperança: “É tão fácil sonhar...”, acredito que todos acompanharam Petrus nessa música, principalmente no refrão.
            Antes de encerrar o show, pedi para que todos fechassem os olhos e contei-lhes a história de uma estrela que fazia parte de mim. “Imaginem um céu estrelado onde, nas proximidades de Júpiter, no sentido leste, está Aldebaran, a estrela alfa da constelação Touro. Esta estrela, desde os tempos remotos, é conhecida como “o olho do touro”, no desenho da constelação. É uma estrela vermelha, gigante, 40 vezes mais brilhante do que o sol. É a 13ª estrela mais luminosa do firmamento e, embora esteja tão distante de nós, é como se estivesse aqui, dentro de mim, pois representa um sorriso, um sorriso que sempre me acompanhará.” Cantei, então, “Lindo”, fechando o show com chave de ouro, e a casa quase veio abaixo com o som das palmas e assovios.
            Saí trêmulo do palco, a cabeça latejando de emoção, fora uma noite feliz, e precisávamos comemorar.
            Já na pizzaria, Petrus me encarou, não havia palavras que pudessem expressar o que estávamos sentindo, um elo de vitória unia nossos corações, e Petrus murmurou emocionado: “Belth, conseguimos!”.
            Fizemos oito meses de shows, havia muitos convites, e nossa vida girava em torno de ensaiar, tocar e cantar. Fizemos uma turnê nas principais cidades da região sudeste. Tocamos em muitos lugares e, nessa nossa primeira temporada, acumulamos muitas experiências, tanto boas quanto ruins. Um novo mundo se abria diante dos nossos olhos, mas só o tempo poderia dizer qual seria o futuro dessa nova estrela.
            Nosso último show foi em Campinas. Já estávamos cansados e desesperadamente necessitando de férias. A emoção fora grande, e a tensão desgastante. Queria voltar ao meu mar e ao meu céu estrelado.

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