quinta-feira, 11 de novembro de 2010

7 - O MISTÉRIO DE PETRUS




            Caminhando pela praia, programávamos nossa nova temporada. Algumas melodias iam brotando, mas nada ainda concreto. Certa noite fomos visitar o Quiosque do Pesqueiro, onde tudo começara, cerca de dois anos atrás. Sr Hook nos recebeu com alegria, logo nos deu a melhor mesa, e nos serviu aquele camarãozinho frito que nos trazia tão boas recordações.
            Naquela noite, sentado naquele quiosque, comecei a escrever alguns versos no guardanapo. Sentia, cada vez mais intenso, aquele desejo de mostrar algo novo, algo que fizesse as pessoas pararem para refletir. Petrus achou aquilo muito complicado, não conseguia perceber onde eu queria chegar. Só compreendeu quando lhe expliquei que a idéia me viera de um livro que lera quando adolescente.

Alice

Na queda pensei que a veria
Havia tempo para pensar
Com tantas gavetas sem seu retrato
Como a poderia imaginar?

O tempo era todo meu
E o sono vinha chegando
Não importa a ordem das palavras
Somente o choque me acordaria.

Tantas portas para serem abertas,
O mundo todo para conhecer.
E somente vejo um jardim
No qual não posso correr

Entre altos e baixos,
Cheguei até você
A chave que abre a porta
Para o jardim, enfim pude ver.

            Logo Petrus e eu chegamos a um acordo. Era preciso fazer diferença. A sociedade já estava repleta de coisas superficiais.
            Na verdade, o meu objetivo era falar das flores, mas não se pode falar delas sem deixar de mencionar os espinhos que cada uma tem.

Flores

Dou-lhe algo fácil de entender
E sem pensar, despreza meus feitos
E me coloca em um moinho d'água
Mas não me afogo, pois como a fênix,
Quero ressurgir em novas embalagens.
Algumas são apenas propagandas de cigarro;
Ou sepulturas ornamentadas,
Não se vendem por aquilo que apalpam
Não se entrega a caridade, nem ao amor.

Agora me apego ao meu lado
São olhares de uma face linda,
Vou ler esse livro, para não julgar pela capa,
E ser desonesto comigo mesmo.

Flores belas, espinhos doloridos.
Caminhos que quero conhecer.

Nossa composição começou a seguir uma nova trajetória. Eu já idealizara isso antes, mas agora as letras eram mais profundas, eu buscava traduzir uma crítica sobre tudo e todos. Na canção “Rainha”, eu procurei retratar um país que tinha medo de ser feliz, que criava raízes num eterno círculo vicioso.

Rainha  

Não me culpe por essa loucura,
É só o tempo em que estamos.
O mesmo sol é para todos,
E as gerações nunca aprendem que
Com máscara somos todos bons.

Não me engane com essa história;
Me chame, poderei dizer sim.
Vós sois atores em um circo
Que hoje chamamos de país.

A minha sorte não está em vossa mão
Ó rainha de grandes belezas,
Gigantesca és perante todos,
Mas doente jazes aqui.

Levante o teu estandarte,
E esmague esse pequeno embrião,
Somos grandes acordados, com medo
De um diminuto poderoso ladrão.

            Sabia que tudo isso já fora dito em algum tempo, por alguém, mas precisava inculcar certas verdades em pessoas que sempre tinham uma tendência ao esquecimento.
            Os dias eram lindos, o mar poético, mas já era hora de voltar a São Paulo para os preparativos do nosso segundo disco.
            Combinamos de nos encontrar no estúdio, pois eu precisei partir antes de Petrus. Tinha uma série de problemas para resolver e o tempo, como sempre, era meu grande empecilho.
            Numa manhã de segunda-feira, daquele mês de abril, dirigi-me ao estúdio com a cabeça repleta de planos e sonhos. Tudo daria certo, e seríamos um sucesso, como fomos com o nosso primeiro disco.
            Cheguei quase uma hora antes do combinado com Petrus. A cada instante olhava para o relógio, pois parecia que Petrus perdera a hora. Já eram 11 horas e nada de ele aparecer. Tentei telefonar para sua casa, mas a linha estava sempre ocupada. Frustrado e nervoso, cancelei a gravação para aquele dia e fui ver o que estava acontecendo com meu amigo.
            Sua casa estava fechada: bati várias vezes e ninguém atendeu, não havia nenhum sinal de vida. Passou pela minha cabeça a hipótese de que Petrus pudesse ainda estar em Caraguatatuba. Mas isto não fazia sentido, pois o telefone dera ocupado, além do mais, ele me dera certeza de que estaria em São Paulo naquele dia, às 11h.
            Só por via das dúvidas, telefonei para seu irmão em Caraguatatuba. Ele afirmou que Petrus tinha partido para São Paulo na noite anterior.
            Comecei a ficar intrigado. Resolvi dar um tempo e esperar até à tarde. Talvez ele tivesse se embebedado novamente. Se assim fosse, estaria de volta antes do anoitecer.
            Às 5 horas voltei a sua casa, mas tudo continuava fechado. Tentei forçar as portas e as janelas mas estavam muito bem trancadas.
            Definitivamente, havia algo de estranho naquele sumiço. A raiva deu lugar a uma preocupação genuína, e eu me senti perdido, não só por ele ser meu melhor amigo, mas também por causa da gravação que precisava continuar, paciência não era o ponto forte do Sr. Boanerges.
            De volta a minha casa, resolvi verificar a caixa de correspondência, e qual não foi a minha surpresa ao encontrar um bilhete de Petrus, dizendo o seguinte: “Venha para a minha casa” e, anexado ao bilhete, uma chave.
            Com o coração descompassado, voltei correndo a casa de Petrus, agora com a chave em mãos. Chegando lá, encontrei outro bilhete colado na porta da geladeira:
“Belth,

Tive que viajar – é uma urgência.    
Infelizmente não poderei estar aqui para reiniciarmos as gravações. Desculpe, não fique com raiva de mim. Ainda não sei quando voltarei, mas só sei que depois eu te explico tudo.

Petrus Scarlis”

            Petrus tinha a facilidade de dificultar as coisas. Ele poderia ter ligado ou deixado uma mensagem clara na caixa de correspondência, mas fizera eu ir até a sua casa para ficar mais confuso.  A carta não esclarecia muita coisa e, ao invés de me acalmar, deixou-me ainda mais apreensivo. O que estava acontecendo? O que teria provocado esse repentino desaparecimento? Que seria de nossos compromissos? Por que ele não se abrira comigo? Todas essas interrogações, e dezenas outras, passavam pela minha cabeça, como  relâmpagos predizendo, uma tempestade.
            Contudo, não tive escolha: enquanto esperava um telefonema ou algum outro contato de Petrus, cancelei os ensaios, as gravações. Foi muito difícil, pois não tinha argumentos convincentes e concretos; pedi-lhes um prazo de um mês até que tudo voltasse ao normal. Ouvi muitas ameaças, mas tive que me calar pelo bem do nosso futuro.  Era só um prazo, não um adeus.
            Passaram-se três semanas e eu já estava quase com cabelos brancos, zanzando pela minha casa, vigiando o telefone, saindo só para comprar comida e para verificar se a casa de Petrus ainda estava vazia. Sem motivação para escrever ou compor, ficava ainda mais deprimido quando ligava o rádio e percebia que nossas músicas já não estavam sendo mais tocadas. Se as coisas continuassem assim, logo seríamos esquecidos.
            Certa tarde, corroído pela ansiedade, resolvi realizar uma nova busca pela casa de Petrus: quem sabe poderia achar uma pista, algo que me trouxesse respostas, mesmo que já fosse tarde demais.
            A casa tinha um cheiro picante de mofo, anotei mentalmente que deveria ter entrado lá mais vezes para abrir as janelas. Comecei investigando o escritório. Havia vários papéis espalhados pela escrivaninha e diversos amarrotados no lixo, que ficava num dos cantos do cômodo, entre duas estantes abarrotadas de livros, revistas, jornais e um monte de tranqueiras.
            Verifiquei cada papel, inclusive os do lixo. Encontrei rascunhos de músicas e papéis sem importância. Já estava partindo para outra quando me deparei com algo que me chamou a atenção: um pedacinho de papel rasgado com metade de um número de telefone. Curioso, despejei todos os papéis da lixeira à procura da outra metade. Satisfeito, juntei as duas metades e resolvi tentar discar aquele número, afinal, não custava nada tentar. Para minha decepção, ouvi uma voz mecânica do outro lado informando-me que aquele número não existia ou que estava fora da área de localização.
            Na sala tudo estava do jeitinho que Petrus deixara. Frustrado, sentei-me  na poltrona e deixei-me ficar ali, somente contemplando o vazio, sem qualquer esperança, o cérebro totalmente inerte.
            Já pronto para ir embora, meu olhar se deteve em alguns porta-retratos arrumados displicentemente em uma prateleira, acima da televisão. Duas fotografias eram antigas: uma de Petrus, um garotinho, com seus pais (parecia ser um piquenique), outra da família toda em um casamento. Havia uma de nós dois no Quiosque do Pesqueiro e uma outra de uma garota que eu não conhecia, de seus, talvez, 20 anos. Retirei a foto do porta-retrato à procura de uma explicação, talvez fosse uma prima, ou quem sabe, um grande amor da vida de Petrus. Não encontrei nenhuma dedicatória, e ao devolver o porta-retrato ao seu lugar original, vi, entre a televisão e alguns Cd’s, uma carta sem remetente. Intrigado, abri-a e li:

“Petrus:          
Ligue para esse número URGENTEMENTE.
O assunto é do seu interesse
(042) 532-7490”

            Surpreso, comprarei mentalmente esse número com aquele achado no lixo e percebi que era o mesmo, só acrescentava o DDD. Corri ao telefone e, com o coração saltando pela garganta, disquei o número. Irritado, tentei novamente – não adiantava: chamava, chamava mas ninguém atendia. Com a ajuda da telefonista descobri que aquele número pertencia a uma cidade do Paraná, chamada São Mateus do Sul. Tentei ligar mais uma vez, mas não obtive nenhuma resposta.
            Durante três dias tentei, insistentemente, entrar em contacto com aquele “alguém” em São Mateus do Sul. Decidido, arrumei uma mochila grande, com roupas essenciais e objetos pessoais e decidi ir para o Paraná investigar o paradeiro de Petrus. Era uma loucura, não tinha o endereço do Sr ou Srª “Alguém”, mas eu não agüentaria ficar um segundo a mais em São Paulo, com os braços cruzados, esperando meu amigo voltar são e salvo. Era preciso fazer algo!
            No instante em que abri a porta de minha casa, pronto para partir, trombei com alguém e ouvi o grito assustado de uma criança. Atordoado, e ao mesmo tempo surpreso, eu ia pedir desculpas quando percebi que a pessoa que eu quase derrubara era Petrus, e meu olhar boquiaberto foi dele para uma garotinha de belos cachinhos pretos, olhos grandes e negros, ressaltados por longos cílios que emolduravam um rostinho muito branco.
            Amedrontada,ela se agarrava a seu ursinho e sua boca trêmula ameaçava um soluço. Tentei esboçar alguma reação, mas, chocado, abria e fechava a boca, como um peixe fora d’água. Petrus, logo refeito, temendo uma reação explosiva de minha parte, deu um sorrisinho amarelo e apontou para a menina, dizendo: “Beth, esta é Wendy.”
            Dei-lhe  um abraço apertado. Aliviado, não sabia por onde começar o interrogatório. Foi então que ele percebeu minha mochila e me perguntou: “Para onde você estava indo?” Dando-lhe um tapa no ombro, respondi fingindo severidade: “Ia  buscar você, seu miolo mole!”
            Sentamo-nos na sala e meu olhar  ia de Petrus a Wendy: enquanto ele me dava um relatório completo do que havia acontecido, a garotinha perscrutava tudo com seus olhos grandes, encolhida num canto do sofá. Ofereci-lhe uma bala, mas ela recusou, desconfiada. Pobre garotinha! Devia ser um choque para ela, entre dois marmanjos que nunca vira antes, numa cidade totalmente desconhecida... Sua atitude defensiva era totalmente compreensível.
Parece que quando Petrus chegou a São Paulo, naquele domingo à noite, ao verificar a correspondência, deparou com uma carta anônima, contendo uma mensagem muito estranha ( e que por sinal, era a mesma carta que eu vira, dias atrás, perto da televisão). Curioso, Petrus ligou para aquele tal número e uma pessoa contou-lhe algo que o deixou chocado, a voz dizia:
 “Você não deve se lembrar de mim, sou a mãe de Ana, sua ex-namorada; espero que você ainda se lembre de quem me refiro” (Como se Petrus pudesse tê-la esquecido! Eles namoraram por quatro anos e Ana foi o único verdadeiro amor da vida de Petrus. À propósito, foi depois de terminar com ele que nós nos conhecemos). Bom, de qualquer forma, aquela senhora revelou à Petrus o verdadeiro motivo da separação deles.
 A revelação daquela senhora deixou Petrus sem fala e o fez  partir naquele mesmo dia. Chegando  lá, Petrus descobriu que Ana estava grávida e sua mãe, que não aprovava o namoro, decidiu persuadir a filha a mudar-se para o sul a fim de separá-los. Decidida a manter-se firme em sua resolução, propôs-se a ajudar a filha a tomar conta do neném. Ana estava muito confusa, pois havia discutido com Petrus alguns dias antes, então, ouvindo os apelos da mãe, separou de Petrus e foi para São Mateus do Sul.
Porém Ana, depois de dar a luz a sua filha, adoecera gravemente.  Ela pedira a sua mãe para encontrar Petrus, pois não queria partir antes de revelar tudo a ele. Mas não houve tempo, Ana se foi, deixando a pequena Wendy aos cuidados da avó, que não fez nenhum esforço para encontrar o pai.
Três anos se passaram, e o destino desejara um novo rumo para a criança. Quem pode lutar contra o destino? A mãe de Ana, já com idade avançada, sabia que não poderia cuidar de Wendy por muito tempo, a avó reconheceu que era preciso engolir o orgulho e entrar em contato com Petrus. Com o coração na mão, mas consciente da fragilidade de sua saúde, e de sua precária condição financeira, ela se viu forçada a entregar Wendy a Petrus, e talvez dessa forma aliviar a sua consciência.
            O resto da história dá para imaginar: Petrus, todo desajeitado, tentando cuidar de uma garotinha de três anos...!
            Olhando para Wendy, senti meu coração se derreter por aquela criança tão pequena e indefesa. Num ímpeto, sugeri a Petrus que morássemos juntos novamente, quem sabe eu poderia ajudá-lo a dar um lar feliz e completo para Wendy. Seria  difícil, aliás, não tínhamos idéia de quão complicado seria, mas estávamos dispostos a tentar. Logo eu me senti tomado por um sentimento totalmente estranho, uma crise de “paternidade”. Faria de tudo por aquela pequenina, aquele vaso não se quebraria.
            Tentei me aproximar de Wendy, suave, carinhoso, conversei com seu ursinho e perguntei-lhe se ele estava com fome. Imitando uma vozinha fina, travei um diálogo com o bichinho de pelúcia, fingindo-me muito interessado no que ouvia. Com o rabo dos olhos, observava a reação da menina. A princípio ressabiada, ela logo ficou curiosa. Como se acreditasse que aquela vozinha fina vinha de seu ursinho, seus olhos, maravilhados, iam de mim para o urso e do urso para mim. Por fim, perguntei ao ursinho: “Você acha que sua mamãe está com fome? Olha, já são quase 2 horas da tarde! Que tal irmos ao Shopping comer um lanche?” Ao que o bichinho “respondeu”: “Viva! Eu adoro sanduíches! Mas só se você prometer comprar um sorvetão para mim!” Levantei os olhos para Wendy e perguntei-lhe: “O que você acha da idéia? Vamos levar o seu ursinho para passear no shopping?” Ela assentiu com a cabeça, um sorriso querendo brotar em seus lábios. Tomei-lhe a mão e saímos em direção à garagem. Ainda pasmo, Petrus me seguiu. Já no carro, ele cochichou em meu ouvido: “Não sabia que você tinha tanto jeito com crianças!” Sorrindo, respondi-lhe: “Mas eu não tenho! Só que com Wendy é diferente.... Ela, de alguma forma, mexeu com o meu coração!”
            E assim se passaram os dias. A responsabilidade era enorme, e a insegurança sempre nos rondava. Tratamos de pesquisar tudo que uma criança de três anos deveria ter, comer e fazer. Aprendi a confortá-la quando ela caía num mutismo completo, ou quando tinha crises de choro, saudosa da vovó. Naqueles momentos eu me deitava ao seu lado e, abraçando-a, contava-lhe histórias de fadas e princesas, ou travava diálogos com seu ursinho, como fiz quando a conheci, e muitas vezes também, cantava canções para ela.
            Aos poucos ela foi se soltando e entre nós cresceu um carinho muito grande. Ela me defendia quando Petrus, às vezes, discutia comigo. Eu a protegia e a amava, como jamais imaginei poder amar novamente. Nosso relacionamento progredia a olhos vistos, a tal ponto que Petrus sentia ciúmes, afinal, era ele o verdadeiro pai. Mas ele nunca tinha muita paciência com ela. Nas brincadeiras cansava-se logo, e fechava-se em seu quarto, longe do barulho de nossos gritos e risadas.
            Nossos dias estavam tão atarefados que mal tínhamos tempo para pensar nas  gravações. Nossa vida de solteirões acabara; agora tínhamos horários para tudo: banhos, passeios, refeições, entremeados com choro, birrinhas, berros,  gargalhadas e repreensões. Sr. Boanerges  já estava furioso, temíamos o cancelamento do contrato. Mas o que fazer com Wendy? Na verdade, eu não queria reconhecer, mas a música já não ocupava mais o lugar primordial em minha vida. Agora, um belo rostinho cheio de cachinhos pretos balançando irrequietos, dominava meu coração.
            Contudo, eu não podia me deixar levar por tais devaneios. Já tínhamos alcançado tanto, não poderíamos deixar nossa estrela se apagar. Com isso em mente, recomeçamos nosso trabalho, nossos antigos projetos. Wendy nos seguia como uma sombra. Felizmente ela era bem comportada e logo conquistou a simpatia de todos do estúdio. 

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