quinta-feira, 11 de novembro de 2010

9 -UMA LONGA HISTÓRIA





Eu estava limpando o quiosque enquanto minha ajudante recolhia as cadeiras e as mesas. Olhei para ela: “Puxa! Como ela crescera rápido!” E, com uma pontinha de ciúmes, suspirei: “E cada dia mais linda!” Wendy virou-se para mim, os longos cabelos negros presos num coque frouxo, de onde teimavam escapar alguns cachos rebeldes, “O que foi, papai? Falou comigo?” Seu sorriso revelava duas pequenas covinhas, e o rosto adolescente transbordava de energia. Sorrindo, eu lhe perguntei: “Você ainda não me disse o que quer ganhar de aniversário... Vamos, desembuche, a festa é amanhã!” Ela deu de ombros e desconversou: “Eu já tenho tudo o que uma pessoa pode querer. Dessa vez sou eu quem vai te dar um presente” Curioso,  tentei saber o que era, mas Wendy, com uma risada marota, insistiu em me deixar em clima de mistério.

No caminho de volta, o percurso sagrado: andávamos até o fim da praia onde, juntos, contemplávamos o mar, a lua, e, é claro as estrelas. Eu ensinara Wendy a ouvir o som do mar, não como um barulho qualquer, mas como uma sinfonia divina. Imersos em nossos pensamentos, vimos uma pessoa na escuridão, que caminhava beirando a água, chutando as ondas. “ Você se lembra, papai,  quando o mar beijava meus pés?  Eu achava aquilo a coisa mais especial do mundo...”Eu sorri, emocionado. Minha menina logo completaria 15 anos e eu sabia que um dia precisaria abrir a mão para deixá-la voar. Lembrei-me daquele dia quando ela me pediu para que lhe contasse a minha história. A princípio fiquei surpreso, mas depois, incentivado por suas perguntas, contei-lhe todas as minhas aventuras e desventuras, começando pela minha adolescência.Quando chegou na parte de Lucy, seus olhos se encheram de lágrimas. Ao mencionar Petrus, Wendy de repente murmurou: “Esse foi seu melhor amigo, não foi, papai?” Chegara a hora da verdade. “Não só meu melhor amigo, Wendy, pois foi graças à ele que hoje eu tenho você.” Wendy pareceu não se perturbar com a verdade pois, para ela, eu sempre fora seu pai verdadeiro. Ao fim de minha história, ela exclamou: “Puxa, papai, sua vida daria um livro! Quando eu crescer, eu vou te ajudar a escrever tudo que você  acabou de me contar!”

            De repente a voz de Wendy me despertou de minhas lembranças: “Vamos, papai, eu tenho que terminar aquele trabalho de história”. De mãos dadas, seguimos para casa. Éramos uma família perfeita.

            Na manhã seguinte saí bem cedo para iniciar os preparativos para a festa de minha filha, que seria no Quiosque “Mar dos Sonhos”. Haveria um jantar especial, e eu convidara diversos amigos, tanto meus, quanto de Wendy. A minha idéia era percorrer as lojas à procura de um presente para ela. Como é difícil escolher!

            Por fim optei por um conjunto de brincos e colar de ouro, a pedrinha azul escura parecia uma estrela a cintilar. Pensei em Lucy e olhei para o céu. Não podia vê-la agora, porém, sua estrela estava lá para me saudar todas as noites. Voltei a pensar em minha vida. Ter Wendy era melhor do que qualquer sucesso, e vê-la alegre valia mais do que aplausos.

            Às sete horas os convidados começaram  a chegar e logo o quiosque estava repleto de vozes animadas e risadas alegres. Wendy estava linda, com um  vestido creme ressaltando sua pele morena, pouca maquiagem, pois sua beleza não precisava de acréscimos artificiais.

            Ao fim do jantar, Wendy tomou a palavra e subiu ao palco, naquele mesmo palco que presenciara tantas emoções. “Boa noite. Eu queria agradecer  a presença de todos. Eu sei que hoje é meu aniversário, mas eu gostaria de dar um presente para alguém muito especial. Papai: hoje também é seu dia. Você me ensinou o que é certo e o que é errado, guiou meus passos trôpegos e me deu o que é de mais precioso: o seu amor. Você me ajudou a acreditar no que é belo e juntos, construímos o nosso mundo onde, seja o que for, sempre haverá uma certeza: E tão fácil sonhar...” E, pegando o violão, ela disse:  “Essa canção vai para o melhor pai do mundo, de quem eu tenho orgulho de ser filha.”
            Eu não conseguia conter as lágrimas.  Queria  imortalizar aquele momento mágico. Sob uma salva de palmas, nós nos abraçamos longamente, selando aquele momento inesquecível de nossas vidas.




* FIM*

Um comentário:

  1. Ahh.. eu li..

    Lindo..

    Sonhar e amar para algumas pessoas é tão dificil, e faz tanta falta!

    Grata
    Ás vezes coisas minusculas, fazem um bem ao proximo enorme..

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