quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Livro: É tão fácil sonhar...


Belth é um jovem rapaz que descobriu através de suas músicas que na vida "É tão fácil sonhar". Embarque nessa linda história de amor, músicas e sonhos, e conheça o mundo de Belth.

"Às vezes eu gostava de escrever apenas pelo hábito. Quando falava de amor, isto me parecia algo tão distante, contornava toda uma poesia para tentar dizer algo que realmente desconhecia."

 

Capítulos:

1 – MEU REFÚGIO

2 - UMA LINDA ESTRELA

3 – ALDEBARAN

4 – FRENTE A FRENTE COM O SUCESSO

5 -O DIÁRIO DE LUCY

6 - BUSCANDO NOVOS RUMOS

7 - O MISTÉRIO DE PETRUS

8 – NOS DEGRAUS DA VIDA

9 -UMA LONGA HISTÓRIA

 

 

 




1 – MEU REFÚGIO


No papel, todos os meus sentimentos. Meu melhor amigo eram os versos, através dos quais expressava o que sentia, viajava sem malas. Escrevia para eternizar minha vida, assim concretizava meus sonhos, quer matizados, quer lúgubres.
Passei minha vida sonhando, mas não me arrependo. Sonhar é bom, pois os sonhos nos incentivam a viver. Contudo, às vezes, a realidade fazia-me pôr os pés no chão de maneira bastante cruel.
Ainda me lembro da primeira música que aprendi. Não fui eu quem a fiz, e tive muita dificuldade para executá-la. Era “Labamba”, de Rich Vallens. Logo que alcancei uma certa segurança, fui me exibir aos meus colegas. Em pouco tempo, eles já não agüentavam  mais me ouvir tocar a mesma música! Por isso me vi frente ao desafio de aprender outras, e treinar, treinar...
Passei muito tempo aprendendo e praticando, parecia que minha vida era só tocar violão. No começo, a dificuldade com a coordenação motora me impedia de executar as músicas que queria. A dor na ponta dos dedos fez-me pensar em desistir, mas logo vieram os calos que, sem dúvida, acabam por nos proteger da dor. Quanto mais calejados ficamos, mais facilmente enfrentamos os obstáculos da vida.
Outra dificuldade inesquecível foram as pestanas das diferentes notas. Elas exigem a habilidade de prender todas as cordas com o dedo indicador aplicado sobre o braço do violão. Porém, como diz o ditado, o tempo traz a perfeição e, pela persistência, eu já me considerava um bom músico.
Crescia em mim a vontade de criar. Já não me satisfazia com o que havia sido inventado por outros. Eu queria algo meu.
Certo dia ouvi um cantor dizer que três acordes bastavam para se fazer uma música. Eu já sabia muitos acordes, com pestanas e sem pestanas. Criei então coragem para fazer minha própria música. E ela tinha quatro acordes!
Era uma manhã chuvosa, assentei-me e compus alguns versos. Na verdade, escrevi para tentar me encorajar, pois a chuva há tempo levara meu alento... Nada parecia animador:

Onde está Você

Vamos parar para pensar,
O que estamos fazendo.
O mundo um dia acabará,
E onde estará você?
Precisamos de coragem para dizer.
Precisamos de coragem para viver.
Se o mundo hoje acabar, onde estará você?

            A música estava pronta. Muito empolgado, fui mostrá-la aos meus amigos, afinal, eu já sabia tocar bem. Essa canção tinha muito valor para mim, cada verso era sincero. Queria que outros também compartilhassem essa minha proeza.
            Todavia, minha alegria durou pouco. Eles riram-se de meus nobres versos e Marcelo, um dos meus amigos, me disse:
            - Ok, agora toque “Labamba”!
            Depois desse dia refugiei-me nos meus versos e em minhas músicas. Era um mundo que me dava liberdade para escrever tudo o que pensava, tudo o que era. E tudo isso era só meu, não mostrava nada a ninguém, minhas canções eram meu diário secreto, o recôndito de minhas intimidades.
            Na rua, todos gostavam de meu violão. Cantávamos de tudo, menos a minha música. Tínhamos um repertório longo: “Será”, da Legião Urbana, foi a primeira que decorei, por ser mais fácil; depois vinha “Lanterna dos Afogados” (Paralamas do Sucesso), “Pra ser sincero”(Engenheiros do Hawaii), “Pais e filhos”(Legião Urbana), “Eduardo e Mônica”(Legião Urbana), “Óculos”(Paralamas do Sucesso), “Marvin”(Titãs), “Faroeste Caboclo”(Legião Urbana), “Love me do” e Can’t buy me love (Beatles) e, finalmente, “Labamba”(Rich Vallens).
Nessa época, acrescentei mais uma música ao meu repertório particular. Estava muito triste e, nada melhor do que compor para tapar o buraco da dor. Em minha mesa, uma caneta, dando forma à canção que revelava as reminiscências de meus oito anos.

Tudo Mudou

Qual é a garantia que temos,
Neste mundo de horror?
Foram maus momentos
Que bom que tudo passou!

Agora que tenho você,
Tudo mudou.
Não quero mais me esquecer,
Você sempre me amou.
A vida passa como o vento,
O que mais poderá acontecer?
No escuro nada é seguro
Mas um fio de luz clareia tudo.

Agora que tenho você,
Tudo mudou.
Não quero mais me esquecer,
Você sempre me amou.

Não quero colher o que plantei,
Quero sementes novas, brotando como o amor.
Pétalas em forma de coração
Na paz de minha oração.    

            Às vezes eu gostava de escrever apenas pelo hábito. Quando falava de amor, isto me parecia algo tão distante, contornava toda uma poesia para tentar dizer algo que realmente desconhecia.
Um dia, um grande compositor disse em rede aberta: “Não existe amor...”. Essa frase calou fundo em minha alma. Não era só eu que não acreditava no amor: ele também, alguém que eu tanto admirava. Tinha em suas palavras o meu argumento. Também não acreditava e não acreditaria no amor. Era óbvio: se o amor existisse, e se fosse bom, não causaria sofrimento, ciúmes, ódio, dor. Não causaria a morte, como no caso de “Romeu e Julieta”. Não haveria brigas. Se o amor fosse bom, não ficaríamos com feridas. É claro que eu só pensava assim porque não conhecia o amor. Mas, naquela época, tal sentimento, ainda vedado a mim, era-me de todo incompreensível, por isso mantive esse pensamento contraditório por muito tempo.
Muitas vezes eu não compreendia o que se passava dentro de mim.
            Para um compositor, ou qualquer adolescente, o mundo gira em torno dos sentimentos. Se estou feliz, tudo ao meu redor reflete esse momento de felicidade; tudo é bom e lindo. Se algo me entristece, a depressão logo toma conta de meu coração e tudo se transforma em melancolia, como se fosse um filme medieval, tudo cinza, tudo trevas. É difícil de se entender as proporções exatas, pois a felicidade é frágil, dura pouco, enquanto que a tristeza é um lago profundo, que nos envolve, podendo até nos afogar com seus tentáculos invisíveis. A vida parece um eterno maniqueísmo, a luta do bem contra o mal.
Eu queria tanto ter um verdadeiro amigo, mas  tinha medo de confiar em alguém. E se ele zombasse do meu talento? Naquele dia, quando exibi minha primeira música, meus amigos riram de mim e essa lembrança sempre me acompanhou, a trazer-me insegurança. Talvez era por isso que, ao invés de cercado por amigos, eu me via cercado por incertezas.
            Naquela época de transformação, quando procurava entender o mundo, não mais através do olhar de uma criança, e nem ainda através do de um adulto, sentia muito medo – o que aconteceria? O que faria de minha vida? Através da caneta escrevia o que queria, o que sonhava, e como via o que queria ver. Mas no mundo real tudo era muito confuso para mim. Queria continuar meus estudos, mas não conseguia definir o que fazer. Queria amar, mas não acreditava no amor. Queria ter um amigo, mas não conseguia confiar em ninguém. Somente uma coisa era certa para mim: sonhava ser famoso, poder tocar e cantar minhas músicas, ser admirado e respeitado pelo que fazia e até mesmo ser rico – afinal de contas, será  que era querer demais?
          Era difícil aceitar que precisava sair de meu casulo. Não conseguia me conformar com as coisas do jeito que elas eram! Queria viver em um mundo onde não seria preciso crescer, eu não queria passar por aquela metamorfose, pois parecia que isso não me traria bons ventos. E, nessa época difícil de minha vida, escrevi mais uma canção para dizer como seria bom se os valores que aprendemos com os nossos pais estivessem presentes nesses momentos conturbados. Nessa época de rebeldia, muitas vezes não compreendemos certos conselhos e nos revoltamos contra certos princípios. Mas, quando crescemos, reconhecemos que, na verdade, somos iguais aos nossos pais.


Opus nº 3
       
Seria bom se os valores fossem iguais,
Seria o fim da busca.
Nunca sou o mesmo, não me afirmo
Seria bom gostar de alguém,
Mas não sou assim.


Não é assim que vejo,
Não é assim que sinto,
Não é assim comigo.

A vida tem dessas,
Quero ficar te esperando
Quero roubar das nuvens o seu mistério
E embalsamar o ontem,
Pois o hoje não dá mais.

Não é assim que vejo,
Não é assim que sinto,
Não é assim comigo.

            Ainda nessa época de transição, levei um golpe do destino: a vida me traíra, a morte prevalecera. Demorei para entender o que estava acontecendo, parecia que o mundo desabara sobre mim, e o fardo era muito penoso. Na madrugada do dia 30 de setembro, expressei minha solidão:

Lágrimas de Setembro

Uma tarde de chuva,
Uma lembrança de Setembro    
Você me deixou,
Nós éramos amigos
Por que foi embora, sem dizer nada?


Brincávamos  juntos
Na praia, na casa e no parque.
Foi essa minha última lembrança:
Uma noite, um “boa noite”.

Por que foi embora, sem dizer nada?
Choro sua falta
Os dias se entristeceram,
Mas a resposta enfim chegou:
Sei que foi Deus quem te levou.

            Tal fato abalou toda a minha estrutura, já tão frágil. Muitos queriam ficar perto de mim, queriam me consolar. Mas o tempo passou, e eles acabaram por se esquecer da minha dor. Cada vez mais introspectivo, queria me distanciar de todos e guardar toda aquela angústia dentro de meu peito. Para mim o mundo era cruel, mas não queria que sentissem pena de minha solidão. Minha mãe parecia deslocada também. Pressenti que ela não agüentaria a falta de meu pai. Mas eu precisava ser forte, mesmo que só nas aparências.
            Passei meses na inércia. O violão era apenas mais um objeto no meu quarto. Mas a caneta estava comigo. Ninguém me conhecia, somente o papel e a minha poesia. Pensando nisso, um dia menti para mim mesmo e resolvi escrever uma canção. A música me veio em sonho, sonhei com a letra, sonhei com a melodia. Acordei, no frescor da manhã, e escrevi:

Ruínas do Coração 

Dunas estranhas, vidas que passam,
Ondas que viajam no mar.
Vidas que passaram, vidas que já se foram
Onde tudo isso vai dar?

Já matei, Já fugi,
Já cansei, Já menti.

E onde está você, minha poesia?
Por que fugiu de mim?
Onde está o amor?
Por que o tirou de mim?

Não sei se vou me curar,
Não sei se vou sobreviver,
Sou assim desde menino...

E o fim, já é passageiro,
Corro como as ondas do mar
Fujo de toda ação,
Escondo-me nas ruínas do meu coração.

            Animei-me a compor, parecia que o sonho me dizia: “Acorde! Tire o pó do violão e faça alguma canção!” E assim fiz, naquele princípio de verão, escrevi quatro músicas.
            A primeira, intitulada “16 de Junho”, fazia-me lembrar de onde encontrar a verdadeira paz, meu tão almejado porto-seguro. (Sempre tive dificuldade para nomear minhas obras! Acabava por colocar o primeiro nome que me vinha na cabeça...)

"16 de Junho"

Com a mesma mão que escrevo estes versos,
Espanco minhas tristezas.
Com a mesma mão que toco essa canção,
Aponto seus erros, e não vejo os meus.

Não compreendo este governo ateu,
Que acaba com as esperanças da juventude
Por que agir assim?
É tão ridículo ser feliz?
Eu sou o que meu coração quer ser.


Quero ir para casa de meu Pai,
Onde posso viver em paz,
E andar em seus eternos jardins,
Recebendo seu perfeito amor.

            E, logo depois, comecei a escrever “Fica algo em nós”. Parecia que eu tinha uma sede de esperança e, por isso, precisava urgentemente expressá-la através do papel e da música.

Fica Algo em Nós

Se o sonho for muito grande, pode acontecer
Basta só acreditar e você será capaz
Imaginar que é bom, persistir na esperança
E então o sonho sai das telas...
Posso até voar se quiser,
E me esconder nos abismos dos oceanos.
Tudo agora é tão real.


Veja, as árvores estão crescendo!
Olhe o mato ao seu redor
Se o mato matasse a morte,
O sonho seria melhor!

Seria capaz de viajar,
Sem tirar os pés do chão.
E a vida vai passando,
Mas estamos longe do fim.

 Lembrar-se dos que se foram
É nunca deixar de amá-los
Tudo um dia vai embora, tudo acaba,
Mas sempre fica algo em nós.

            Resolvi ligar a televisão, no entanto, nada havia de interessante e construtivo. Só via gente imitando gente (e, às vezes, animais...). A moda não tem nada de criativo! Refletindo sobre isso, compus:

MODA

Por que tudo na vida é moda ?
Os ritmos vão e voltam,
E as saias curtas estão de volta.
Os cabelos compridos já foram embora.

Até quando os desenhos japoneses serão moda?
“Ficar” ainda é moda?
Devemos copiar tudo e distorcer tudo?

Vivemos num país sem glórias passadas,
Num país de modas estrangeiras.
Nada do que vejo é original,
Somos apenas cópias descartadas...

            Parecia que essa seria a última do dia, daquele dia que passou num piscar de olhos. Estava satisfeito com meu trabalho, minha inspiração, meus versos. Três músicas estavam no papel mas,  para fechar com chave de ouro, fiz uma introdução com base em Dó maior, e compus:


Este Dia

São só palavras que não caíram bem.
Foi o que disseram,
Foi o que eu disse.
Cada página virada é um capítulo,
É algo que aprendi para o futuro.

São duas escolhas, e eu sigo a melhor
Por isso lembrei-me de dizer “bom dia” para o dia,
Mesmo que a chuva esteja entre nós.

E ao anoitecer, ver que somos felizes,
Pois aproveitamos cada minuto,
E enterramos todas as decepções.

            Era como uma energia que emanava de mim para a caneta, desta, para o papel, e deste, para cada acorde, transformando-os e unido-os a cada nova canção. A música era meu consolo, minha forma de curar feridas.  Ela remendava  meu coração partido, dizendo-me que ainda havia esperança.
            E assim se passaram as semanas, os meses, a roda da vida, repleta de altos e baixos.
            Nos dias em que me sentia num buraco negro, sentava no escritório e escrevia. Os sentimentos sombrios conseguiam aniquilar qualquer esperança. Via as pessoas comendo e bebendo, pareciam tão felizes... Mas não queria ser como elas: meus princípios eram diferentes. Não agüentava ver o show da vida e a forma como as pessoas eram (e são até hoje) manipuladas.
            Quando me sentia mais positivo, saía com alguns colegas, calando em mim aquele desejo de carregar o mundo e suas infelicidades. Com eles, conseguia me esquecer de toda a minha vã paranóia. No entanto, quando sozinho, tudo estava lá, de novo a me atormentar. Pensava que, na verdade, só havia sido realmente feliz na minha infância.
            Quando em companhia de meus colegas, olhava com desprezo para as meninas e os outros meninos de minha idade. Parecia-me que as garotas só se interessavam em rapazes que tinham carros, que usavam roupas de marca, que tinham dinheiro para gastar. Esses, em sua maioria, não tinham muito sobre o que falar, suas palavras resumiam-se em gírias pobres e modas copiadas que nem mesmos podiam compreender. No fundo, eu queria conhecer alguém que pudesse ver além das aparências. Tudo isso me inibia, essa constante incerteza, como se fosse uma venda em meus olhos, boca e ouvidos.
            Disso tudo surgiu:


Não Sei

Como podemos estar acordados
Em um dia como este?
Nada passa na cabeça
Nem o tempo passa...
Dias como este quando queremos
Ver um rosto amigo
Ou só um “oi”, para amenizar a dor .

Venha, eu quero cantar
Não sei bem o que quero dizer,
Nada é tão simples
Para quem não sabe viver.

Não me diga o que fazer
Ainda temos que viver!
Feliz é todo aquele que não vive
Com medo de morrer?
Como vou acordar
Se o dia é para dormir?  
Como vou passar o tempo?
Isso eu não sei.
     

2 - UMA LINDA ESTRELA



         Cada dia é um novo dia, o futuro pode trazer muitas surpresas. O tempo voava, e com ele, as estações.
            O verão se aproximava forte, e a onda de calor, o sol, seus raios, tudo parecia me recarregar de energia e de ânimo. Os dias mórbidos haviam ficado para trás e tudo vinha embelezado de vida e de esperança. Verão, para mim, combinava com praia e, naquelas férias, decidimos passar quinze dias em Caraguatatuba, litoral paulista, meu primo, Amadeus, e eu.
            A praia é um mar de poesia! Do horizonte infinito, onde água e céu confundem-se num esplendor de amplitude, as ondas vinham beijar a praia, e a brisa que refrescava meu corpo fazia as palmeiras bailarem num som peculiar. Eu estava em harmonia com a natureza e me  sentia parte de tudo aquilo. Meus pés afundavam-se na areia que parecia me dizer “Fique comigo!”. Era um cenário perfeito para a paz e para o amor. Sentado na areia, contemplava tanta beleza e, sonhando, dava asas à minha poesia. Não tinha papel, estava sem meu violão mas, jogado ali, um palito de picolé e a vastidão da areia. A praia estava quase deserta, o sol se despedia do mar. Agachei-me  e escrevi:


Sinto a calma que está no ar
A distância é curta para se percorrer.
Sem medo do desconhecido,
Revelo os selos da recompensa.

Não sou um alvo, porém atiram em mim
Mas posso ser a pedra que quebra sua janela
Para levar meu recado de amor.

Não me importo se o acaso cair em mim
Já construí minha fortaleza
Só faltam as flores para completar meu jardim.

            Subi nas pedras, de onde poderia ver toda a praia. Os reflexos do sol deram seu último brilho de luz sobre minha poesia, escrita em letras gigantes. Porém, em menos de dez minutos, as ondas chegaram e a levaram consigo mar adentro. Só ficou a mensagem gravada em meu coração, onde água nenhuma poderia alcançar.
            Amadeus gostava muito de sair à noite. Geralmente, eu já estava muito cansado e não tinha ânimo para as noitadas à beira-mar. Mas, um dia, resolvi sair com ele.
            Vi uma multidão, gente de todos os tipos, de todas as raças. Uma confusão de músicas ensurdecedoras machucavam os meus ouvidos. Como a cultura brasileira havia se rebaixado! Aquele calçadão me horrorizou e eu, já por natureza um tanto insociável, não agüentei ficar lá. A ordem que deve existir para que o homem viva bem com seu semelhante estava longe de reinar naquele lugar.
            Retirei-me daquela depravação urbana e resolvi voltar, seguindo a praia, para a casa onde estava hospedado. A lua estava linda, as estrelas cintilavam no céu. Já longe do calçadão, o som das ondas era a única melodia em meus ouvidos.
            Como voltava a pé, e o caminho para a casa era longe, cerca de duas horas de caminhada, na metade do percurso parei para descansar. A melodia do mar parecia me acompanhar. O lugar estava completamente deserto. Sentei-me em uma mureta que dava de frente ao mar, onde poderia contemplar as estrelas. Vi uma luz fulgurante que atravessava o céu e que caía, em direção a um ponto longínquo, no mar. A lua brilhava na areia, como o sol havia brilhado em minha poesia. E, de repente, como uma aparição, meio oculta do reflexo do luar, vi uma silhueta, sentada, sozinha, bem perto da água.
            Tive medo de me aproximar – ela poderia se assustar – afinal, estava tudo deserto, e é na solidão que mora o medo. Fiquei observando de longe, percebi que o som das ondas misturava-se ao som de suas lágrimas.
            Súbito ela se levantou e correu em direção às águas negras. Vi cada gesto, tudo aconteceu em poucos segundos. Sem pensar duas vezes, corri também e me atirei ao mar. Ela, à princípio, debateu-se, mas depois, resignada e, certamente exausta, deixou-se levar até a praia. Enrolei-a na blusa que tirara antes de entrar na água e, com o calor de meu abraço, esquentei seu corpo que tremia, num misto de frio e de soluços.Ela olhou para mim e, como que não acreditando, perguntou-me se eu era um anjo. Que milagre era aquele? Aparecera na hora certa e no lugar certo. Meu coração batia forte e eu a segurava como quem segura um cristal frágil. Perguntava-me o que estava acontecendo, mas a resposta era tão desconhecida quanto aquele encontro inesperado. Parecia um conto de fadas totalmente real.
            Talvez aquele encontro sobrenatural tenha sido a razão de nossa amizade instantânea. Talvez fosse apenas o acaso, que unira mais dois corações. De qualquer forma, depois de algum tempo, já conversávamos como se fôssemos dois velhos amigos. Juntos, sentados na areia, vimos o sol nascer. Eu não a conhecia direito, nem ela a mim, mas uma atmosfera de segurança nos unia. E então lhe perguntei: “Mas, por quê?” Ela, naquele momento, baixando os olhos tristes, confessou: “O amor não existe” .
            Falamos sobre várias coisas, mas aquelas palavras não saíram de minha cabeça: “O amor não existe”. Levei-a para a sua casa e prometi que voltaria.
            O sol já esquentava a cidade. Meu corpo estava quebrado, mas ainda pairava um clima de sonho, eu não conseguia coordenar direito o que acontecera, mas o sorriso de Lucy e suas palavras provavam-me que tudo fora real.
            Chegando em casa encontrei Amadeus dormindo profundamente. Sorri para mim mesmo e pensei que minha noitada havia sido mais emocionante do que a dele. Antes de me deitar, escrevi em um pedaço de papel: “Será que isso é amor?”.
            Quando acordei já se passava de três horas da tarde, mal comi alguma coisa e corri para a casa de Lucy. Antes mesmo de bater palmas eu a vi sair de sua casa, sorrindo, aquele sorriso que me acompanha até hoje. Seu rosto era meigo, delicado. Havia um quê de puro que a ornava, tornando-a ainda mais bela em seu traje simples – blusinha branca e saia colorida. Seu sorriso era como o sol da manhã, num céu sem nuvens, que brilha e alegra todo o mundo. Nem parecia a mesma pessoa que encontrara no dia anterior, tão desiludida. Entrei em sua casa e conheci seus pais e irmãos. Era uma família tão simpática, parecia bem-estruturada, o que comprova que as crises não respeitam classe social, gênero, credo ou idade.
            O interessante é que muitos afirmam que o amor surge como uma paixão, um fogo ardente e consumidor. Mas, para mim, apareceu na forma de um sorriso doce e eterno. Através dele, o amor mostrou a sua face mais viva e intensa.
            Naquele mesmo dia, quando Lucy mostrava-me sua casa, vi, em cima de uma mesa, em seu quarto, um guardanapo, com o seguinte escrito: “Sim, existe amor...”
            Passamos muitos dias maravilhosos, quase todos os finais de semana eu ia para Caraguatatuba a fim de ver Lucy. Ela às vezes ia me visitar e passava alguns dias comigo, eram dias especiais, cheios de alegria.
            Parecia que fôramos feitos um para o outro. Naquela época, no meu coração, não havia espaço para lágrimas. Havia uma grande necessidade de um estar perto do outro, era como se um fosse a canção e o outro a melodia. Finalmente, minha vida tinha algum sentido. Minhas poesias eram só para ela, minha vã paranóia já eram águas passadas, afinal,  tudo agora era lindo e completo.
Gostava do seu jeito de ser, ela me compreendia e me apoiava. Fazíamos planos, e o futuro me parecia colorido e promissor. Nossa vida estava quase completa, eu sabia que a amava. Parecia uma eternidade que estávamos juntos e acreditava ter chegado o momento de revelar-lhe meus sentimentos mais profundos.
            Todavia nosso amor durou apenas 350 dias. Não houve causa de desamor, mas parecia que uma força poderosa e destruidora perseguia o meu destino. Lembro-me como hoje o dia em que a encontrei sem o seu lindo sorriso. Lucy me chamou para um passeio, e fomos andando até a Prainha, caminhamos a pequena trilha que nos levava a Pedra do Jacaré, e ali sentamos e contemplamos a paisagem. Um silêncio devastador pairava no ar. Percebi que não conseguíamos ser nós mesmos e tinha medo de perguntar o que estava acontecendo. Lucy rompeu a quietude e disse-me:

- Belth, faz quase um ano que você apareceu em minha vida – eu olhei para os seus olhos e temi. Lucy continuou – Parece que nossos caminhos se cruzaram e que a partir desse dia, passamos a andar juntos – Concordei com ela, e deixei-a continuar – Mas eu descobri que há vários caminhos, e que as vezes não podemos seguir juntos – discordei plenamente.
- Se há um caminho eu posso seguir – eu disse a ela –  Não diga que seu caminho aponta para outro lugar.
- Há caminhos que nos levam contra a nossa vontade, caminhos para uma pessoa só andar. Entenda, eu não quero desviar do nosso caminho, mas não posso levá-lo.
- Somente a morte pode me desviar do seu caminho – Eu disse enfurecido.

            Malditas palavras. Eu vi os olhos de Lucy se fecharem, suas mãos tamparam a sua boca e o som abafado de seu choro confirmava o meu medo. Eu não sabia o que fazer, todas as minhas crenças naquele momento estava sobre um fio. Tive medo de perguntar o que estava obvio aos meus olhos. Ela me disse em prantos:

- Eu já não posso fazer mais nada, somente aproveitar cada segundo que me resta. Estou doente e acho que não posso acreditar em milagres, estou fraca para isso.

            Olhei para ela, e o véu do amor despencou de meus olhos. Eu a vi magra e frágil, seu rosto não tinha mais o brilho de outrora. Eu não sabia o que dizer e nem como consolá-la. Em meu coração havia uma egoísta pergunta: Como vou ficar sem ela? A única coisa que pude fazer foi abraçá-la e chorar com ela.
            Passamos muito tempo chorando, o dia passou e uma noite estrelada tornou parte da paisagem. Estávamos deitados na pedra, olhando para o céu e ela novamente rompeu o silêncio:

- Belth, olhe para o caçador – ela me apontou a constelação de Orion – ele sempre estará olhando para o Touro. Foi assim que você me ensinou. Faça o mesmo. Lembre-se de mim.

            Novamente fui traído pela vida, a morte prevaleceu. Estava tudo tão perfeito! Desde nosso encontro mágico, eu devia ter percebido que era só um sonho maravilhoso. Éramos tão amigos, por que o destino sempre tirou de mim tudo o que me era mais precioso? Lucy foi a única que me aceitou do jeito que eu era, que não riu quando lhe mostrei um pouco de mim.
            Sabíamos que o amor nada mais era do que uma infinita amizade, e essa sim, jamais poderia acabar, mas eu queria mais, muito mais.
            A coragem de Lucy nos seus últimos dias foi o que me segurou. Achei que iria enlouquecer. Já havia convivido com a morte antes, mas nunca estamos suficientemente preparados quando ela reaparece.
            A doença foi rápida e traiçoeira. Larguei tudo para ficar ao lado dela. Estávamos no hospital, onde ela já estava internada há seis dias. Eu me sentia mal ao vê-la, não conseguia ser eu mesmo. Ao contemplá-la no leito, alguma coisa me impulsionava a sentir aversão àquela situação. As vezes eu não tinha forças para conversar com ela. Cada olhar de seus olhos cansados destruía um pedacinho de mim.
O que mais me machucava era que a dor que ela sentia era maior do que a minha própria dor, e o pior de tudo era que eu não podia fazer nada para mudar aquela situação. Eu me sentia pequeno neste enorme mundo. Eu a via indo embora, devagar, e sua voz se enfraquecia a cada dia, e seu brilho de outrora era cada segundo mais opaco.
Naquele último dia, um olhar de medo me deu as boas vindas. Eu pensava comigo mesmo: “Nada pode me separar de você...” Mas eu sabia que isso não era verdade. Sentado ao seu lado, soluçava:

- Não pode ser assim que a vida funciona, nós éramos um, eu não vivo sem você! - Implorando, dizia-lhe - Não vá, eu preciso tanto de você! - Olhamo-nos demoradamente, eu percebi que minhas palavras não tinham o poder de salvar sua vida. No fundo, eu sabia que aquele seria o nosso último momento juntos. Não sabia o que mais dizer, meus olhos denunciavam o que estava sentindo, a dor, um antigo fantasma, voltava a me assombrar. Agarrava suas mãos, como se assim pudesse mantê-la comigo por mais tempo, não era justo que tudo terminasse daquele jeito! Sussurrei em seu ouvido:

- Lucy, você sempre será a mulher de minha vida, eu te amo! – Mas era tarde demais, ela já se fora, e minha declaração de amor ficou no ar, assim como o nosso primeiro beijo, no entanto, eu tive a sensação de ter sido correspondido. Palavras que nunca ousei dizer brotaram naquele momento, era como se ela ainda pudesse me escutar e, com seu lindo sorriso, me dizer o que eu tanto sonhava ouvir: “Eu também te amo!” Porém, tive que lhe dizer adeus, e minha angústia não condizia com a linda noite que se aproximava. Sentia-me perdido no mundo, só, desamparado, como um recém-nascido.
            Não sabia o que fazer, nem aonde ir. Andei por horas a fio na praia, sem rumo, como se aquilo pudesse amenizar minha dor, que parecia eterna. Gritava para o vento: “Por quê? Por que ela tinha que ir embora?” Mas a única resposta era a canção do mar.
Tentei me concentrar em outras atividades, mas a perda fora grande demais para mim. E, entre lágrimas, escrevi para Lucy:

Lindo

A lua sorriu para mim,
Em pleno mar, com estrelas
Em cada brilho,
Eram dias perfeitos.

Quando olhei para o céu,
Escolhi uma estrela para mim
E quando vem a saudade,
Vejo seu sorriso
E a força que me deu
Na esperança de saber
Que sempre em minha vida
Ao olhar o céu, à noite,
Eu vejo você.

Ainda me lembro de você
Quando vi o que era amor
Era forte e verdadeiro
Tudo feito para sonhar.

Foi na praia contando estrelas
Construí o nosso lar
Eram castelos de areia
Que as ondas vinham  derrubar
Fomos apenas crianças
Brincando de amar.     

Quando olho para o céu,
Vejo a estrela que escolhi
E quando vem a saudade,
Vejo seu sorriso
E a força que me deu
Na esperança de saber
Que sempre em minha vida
Ao olhar o céu, à noite,
Eu vejo você.

            Olhava para o céu e me lembrava de minha Lucy, a dor me consumia. Meus olhos estavam constantemente marejados de lágrimas, a ferida aberta parecia nunca querer sarar. Andava como um zumbi, vegetava, sem forças para viver. Tudo parecia tão monótono, minha voz fora-se embora. Não tinha com quem conversar, não tinha com quem chorar. E, novamente, pelos meus versos, fazia minha confissão:


Você olhou para mim,
Não sei o que dizer
Você sorriu pra mim,
Não sei o que  fazer.

Meu coração se consome
A saudade me atormenta
Esta noite não dormi
Esperando por você.

Mataram meus queridos
Mataram a minha vida
Senti falta de mim
Senti falta de você

Quem disse que o amor não dói?
Perto ou longe sempre dói
No vazio do amor,
Minha  vida não tem valor.

Quatro estações passaram por mim, enxugando minhas lágrimas. Mas a dor permaneceu em meu coração e eu pensava que nele só Lucy poderia morar.
Nunca haveria outra igual a ela. Eu conhecera o amor – ele existia, mesmo que  agora só na forma de uma memória.

3 – ALDEBARAN


Todas as noites eu gostava de ir até a praia, algo me atraía para lá. Sentava-me na areia e ouvia a natureza, uma sinfonia criada por Deus. Refletia sobre minha decisão de permanecer em Caraguatatuba. Fizera daquela cidade meu lar, como se ela fosse um elo que ainda pudesse me ligar a Lucy. Era utopia, eu sabia, Lucy jamais voltaria. Mas era confortante lembrar que fora lá que tudo começara.
Estava imerso nesses pensamentos quando um vulto atrás de mim disse: “Vai chover, corra!” Havia estado tão concentrado em minhas reflexões que não notara a mudança do tempo. Logo pingos grossos começaram a cair na areia. Não tive escolha, corri para o quiosque mais próximo. Lá estava o rapaz que me avisara  sobre a chuva. Era magro, alto, usava óculos. Sorrindo, ele me disse:

- Gosto de caminhar à noite, e a chuva me pegou de surpresa! – Sorri para ele, concordando. Apresentamo-nos. Como eu era meio reservado, Petrus começou a puxar assunto. Parecia que ele precisava desabafar. Não me importei, havia me simpatizado quase que instantaneamente com ele.

Petrus segurava em suas mãos um papel que, já amarfanhado, tentava esconder. Depois de um bom tempo de conversa, ele sentiu liberdade para me mostrar do que se tratava. Era uma carta de sua namorada, pondo  fim a um relacionamento de quatro anos.
Petrus mostrou-me os versos que rabiscara. Parecia não conseguir chegar a lugar nenhum. Pedi o papel, peguei a caneta, e disse-lhe para esperar dois minutos. Quando terminei de escrever, peguei emprestado o violão do quiosque e, com notas tristes, comecei a cantar:

Chuva pra ti

Trovões e luzes
Pra iluminar ou pra cegar?
Sinfonia de uma chuva
Pra inundar ou pra regar?

Será que ela veio para embalar tua tristeza?
Hoje minhas palavras não te consolam
Na verdade, não chegarão a ti
Elas saem da garganta
Vão do coração para o vazio.

Ainda ouço a chuva, e penso:
Será que não é um recado?
A chuva passa, e a dor também.

Os olhos hoje brilhantes de lágrimas,
Amanhã talvez não mais estarão.
Pois a chuva passa e a dor também.

            Petrus riu, mas sua risada não era zombeteira e, quando terminei de cantar, ele me disse: “A chuva nem sempre passa, mas os ventos a moldam, como as situações moldam a vida”.
            Ele contou-me que desde pequeno sua mãe o obrigara a ter aulas de piano em um conservatório. Portanto, depois de dez anos, ele podia considerar-se um bom músico. Logo tornamo-nos companheiros inseparáveis. Nós nos completávamos: eu tinha o dom de compor e ele, as técnicas e um vasto conhecimento na área musical.
Nada mais me prendia a São José dos Campos. Resolvi dar um novo rumo à minha vida. Com o dinheiro que recebera de herança, comprei duas casas: em uma eu morava e a outra eu alugava. Com o dinheiro do aluguel eu podia ter uma vida razoavelmente confortável e estaria livre para me dedicar ao sonho de minha vida: a música. Começara a ter aulas de violão e aperfeiçoava meus dedos em técnicas mais avançadas. Estava animado. Novamente, o horizonte parecia se abrir para mim.
Meus dias deixaram de ser monótonos. Petrus era meu novo amigo, e vi que podia me abrir com ele. Confiava-lhe minhas canções, que era tudo que me restara. Ele soube ouvi-las com respeito e, através delas, conhecer-me melhor.
            Todas as tardes Petrus ia à minha casa. Ficávamos horas a conversar, falando sobre tudo. Sempre que brotava inspiração, criávamos músicas.   
            Uma noite chamei Petrus para contemplar o céu, em sua imensidão. Fomos à beira-mar e sentamos-nos na areia. Ele levara sua gaita e eu, meu violão. Uma brisa noturna nos refrescava. Eu disse a Petrus:

- O mundo é às vezes meio ingrato! Parece que tudo que amamos nos é tirado, parece que as pessoas ruins é que sempre se dão bem. Às vezes tenho a impressão de que o mal cresce mais rápido do que o bem e que os sentimentos bons, hoje são jóias esquecidas -.Petrus,    solidário, respondeu:
- Não perca as esperanças, estou aqui com você, somos amigos, não somos? Então pare de reclamar, pense um pouco nas coisas boas que nos rodeiam. Existe o mal, sim, mas só quando passamos por situações negativas é que damos mais valor aos momentos bons.

            Petrus sempre procurava me animar quando me via deprimido. Apesar do seu jeito descontraído, eu sabia que, no fundo, ele era mais frágil do que eu. Mas, definitivamente, ele sabia como espantar minhas tristezas. Logo começamos a falar sobre nossos sonhos, e a esperança voltou a brilhar em meus olhos. Daquela conversa nasceu “É tão fácil sonhar...”, uma canção que diz que apesar de às vezes não compreendermos bem o rumo que a vida toma, vale a pena sonhar.

É tão Fácil sonhar...

Você não tem escolha, tudo passará.
A vida toda se transformará
Você não tem escolha, é inexplicável,
Entender o seu bem.

É fácil demais...


Quem vai explicar o que a vida faz?
Quem vai dizer o que vai acontecer?
Quem vai ditar as regras do futuro?

Os bons estão indo embora,
Só nos resta a saudade
Não fique triste agora.

É fácil demais, sonhar com um lugar melhor.
É fácil demais, sonhar com os caminhos dourados.
É tão fácil sonhar...

Não sabemos o futuro
O que guarda para nós
O caminho está aberto

É tão fácil Sonhar...

Nós não sabíamos mas, naquela noite, havíamos criado nosso primeiro “hit”. Não sei o que nos levou ao Quiosque do Pesqueiro, talvez o ânimo da canção nos tivesse contagiado. Só sei que, por um inexplicável impulso, resolvemos pedir licença ao Senhor Hook para subir ao palco. Um grupo bom de pessoas estava lá, afinal, era uma noite muito agradável. No começo, não prestaram muita atenção, mas logo um rapaz gritou: “Cantem mais alto! Essa música é legal!”. Todos se viraram para nós e, sentindo-nos encorajados, soltamos a voz, até então meio insegura e tímida. Cantamos “É tão fácil sonhar...” e, ao término desta, apresentei-nos como “Aldebaran”, e pedi às pessoas que olhassem para o céu. Como a noite estava linda, era possível ver todas as estrelas. Apontei uma e disse:

- Essa música vai para aquela estrela que, nesse momento, está a sorrir para mim -Cantamos “Lindo” e, ao fim do último acorde, recebi um dos melhores presentes de minha vida: o som das palmas, entusiasmadas, pedindo mais.

Depois disso, sentamos-nos para descansar. A sensação fora maravilhosa, e as emoções se tumultuavam em meu coração. Petrus me perguntou: “Que negócio é esse de “Nós somos Aldebaran” ”? Respondi-lhe: “É apenas o nome de uma estrela, mas também o de nossa banda”. Ele me olhou intrigado: “Você está louco!”.
Naquela mesma noite ficamos até tarde à beira–mar, rodeados por algumas pessoas, conversando, cantando. Então alguém nos pediu para fazer uma canção. Peguei o violão e, depois de alguns momentos, comecei a cantar. Logo Petrus me acompanhou no refrão, fazendo a segunda voz:

É Assim

As nuvens escondem o sol
O mar guarda tesouros
Meu peito sente saudades
De alguém que sempre procurei.

É assim desbravando os mares
É assim rápido como o avião
É assim como pisar nas nuvens
É assim em meu coração.

Os ventos que nos contornam
Nos indicam o caminho a navegar.
O tempo que nos envolve
Permite-nos decolar.           

É assim desbravando os mares
É assim rápido como o avião
É assim como pisar nas nuvens
É assim em meu coração.

É apenas uma canção à beira-mar
Simplesmente o nosso sonho
Não podemos acampar ou ancorar
Vamos, a viagem vai começar!

É assim desbravando os mares
É assim rápido como o avião
É assim como pisar nas nuvens
É assim em meu coração.

            Aquela música foi o “pulo do gato”. Como era simples e fácil de decorar, principalmente o refrão, em pouco tempo vi-me acompanhado pelos outros. Parecia só uma brincadeira, mas aquele fora nosso primeiro show, fôramos aplaudidos pelos nossos primeiros fãs e déramos o nosso primeiro passo em direção ao meu tão aspirado sonho.
            Aldebaran tornou-se algo concreto e comentado. Muitos iam ao Quiosque do Pesqueiro só pela curiosidade de nos conhecer, e para comprovar se era verdade o que ouviram de “Fulano”, que por sua vez ouvira de “Beltrano”, e assim por diante. Logo depois daquela noite quando demos o nosso primeiro “show” e por causa da chegada do verão, Sr. Hook nos contratou para tocar no Quiosque do Pesqueiro todas as sextas-feiras à noite. Empolgados, concordamos. Para termos um repertório maior, Petrus e eu criamos novas músicas, e o que ele antes achara loucura, foi se tornando algo cada vez mais possível.
            À pedido das pessoas, gravamos em uma fita cassete “Lindo”, “É tão fácil sonhar...” e “É assim”. Enviamos à rádio da cidade e logo nossos três “hits” estavam tocando por toda cidade de Caraguatatuba. Cada vez que ouvia nossa música, meu coração se enchia de alegria a ponto de quase estourar de emoção. Embora houvesse sonhado tanto com isso, nunca imaginei que pudesse ser assim.
            Petrus e eu começamos a nos encontrar com mais freqüência, afinal, tínhamos agora um motivo a mais para nossa inspiração.
            “Cultura Brasileira” surgiu de uma brincadeira, pois eu fazia um verso e Petrus o outro, como se fosse uma competição. Mas a mensagem estava longe de ser uma brincadeira.

Cultura Brasileira

Vejo crianças nas ruas
Vejo velhos no chão
Morar nesta cidade
Viver nesta solidão.

Andar pelas estradas
Jogar futebol.
Morar em jaulas,
Muros e grades.

Ouvir nossa cultura
Uma eterna Legião
Navegar no submarino
Na Abbey Road,  na contra-mão.

Sentado à mesa,
Com velhas canções
Lembrar do passado
Fazer previsões.

Assistir mais uma tarde
De domingo na TV
O pior é segunda-feira!
Cultura Brasileira...

            Certa manhã, o ânimo se enroscou no pé de minha cama e não queria me acompanhar no despertar. Até os pássaros pareciam tristes, gorjeando sem vontade. Era como se a natureza ainda estivesse adormecida e o sol, escondido atrás de nuvens, parecia-me dizer: “Fique mais na cama, você não precisa acordar ainda...”
            Esticando meu braço em direção ao criado-mudo, alcancei meu caderno e, na penumbra do quarto, escrevi:
 
Pé Esquerdo

Acordar devagarzinho, ver meu quarto no escuro.
O vazio está dentro de mim.
Há de ter um sentido para tudo isso
Não tenho nada hoje, é só um dia ruim.

Não sei o que tenho, nem o que sinto,
Meu livro está no vigésimo capítulo
Minha música está descobrindo o sentido.

Amanhã é um novo dia, vai ser melhor...
Amanhã é um novo dia, quero acordar melhor...


Hoje não é legal
Hoje tudo é tão banal
Minha voz está cansada
Meus olhos estão fechados.

Amanhã é um novo dia, vai ser melhor...
Amanhã é um novo dia, quero acordar melhor...

O sol vai surgir agora:
Quem sabe já é o novo dia?
O sol clareia as nuvens,
E brilha nas novas faces
O sol nasceu para mim, e também para você.

Amanhã é um novo dia, vai ser melhor...
Amanhã é um novo dia, quero acordar melhor...

Mostrei a letra a Petrus e ele, em pouco tempo, criou toda a sua estrutura musical. Sabíamos que seria um sucesso, estava perfeita, linda! Petrus mostrou-me, então, o que escrevera na noite anterior e que “musicara” naquela manhã.


Será algo Comum

Será que eu sou capaz
De cantar a vida e saber
Que o primeiro pecado foi querer
Saber demais?

Será que eu vou lembrar
Do dia em que cresci
E me escondi em meu
Universo de quatro paredes?

Será que veremos
Um mundo melhor
Sem tiras que atiram e
Sem jovens que viajam sem estradas ?

Será que veremos um mundo melhor...?

Com o nosso pequeno repertório, nós nos preparamos para aquela sexta-feira. Os dias pareciam voar. Tudo estava dando certo, nosso futuro parecia promissor.  
Quando chegamos ao Quiosque do Pesqueiro, Sr Hook acabara de abri-lo. Sentamo-nos e começamos a afinar os instrumentos e como tínhamos tempo, repassamos nossas músicas.
Uma hora depois, as pessoas começaram a aparecer. Alguns nós já conhecíamos, outros eram turistas. Às nove horas da noite subimos ao palco.
Havia cerca de cinqüenta pessoas por ali e Sr Hook esperava que mais gente ainda fosse aparecer.
Todos os olhos se voltaram para nós, em expectativa. Apresentei-nos e saudei nosso público. A primeira música foi “É assim”, muitos já sabiam de cor, pois já fora tocada na rádio diversas vezes. É tão bom ser aplaudido! Junto com as pessoas, cantamos o refrão, e as vozes animadas ecoavam pela praia. A próxima música foi “Cultura Brasileira”, eu perguntei às pessoas se elas queriam um pouco de “cultura”...
Petrus assumiu o vocal para cantar “É tão fácil sonhar...” e “Será algo comum”. Quando chegou a vez de “Pé Esquerdo”, ele contou a história de uma menina que queria acordar em um mundo melhor, na esperança de encontrar um sentido para a sua vida.
Voltei ao vocal, Petrus estava atrás de mim com o teclado. Um fundo musical acompanhava meu convite às pessoas para que olhassem para o mar e para as estrelas. “Cada brilho refletido no céu faz-me lembrar de um lindo sorriso. É por isso que digo que as estrelas sorriem para mim” Tendo dito isso, pedi ao Sr. Hook que apagasse as luzes do Quiosque e, envolto por um clima, ao mesmo tempo romântico e nostálgico, cantei “Lindo”. E assim terminou nosso show, as luzes se acendendo e as pessoas aplaudindo, incansáveis, arrebatadas.
A cidade estava lotada de turistas, aquele verão parecia realmente atraente. E como não queríamos cantar músicas criadas por outros, tivemos que nos dedicar cada dia mais, inovando nosso repertório, aperfeiçoando nosso desempenho, pois todas as sextas-feiras tínhamos um compromisso com nossos “fãs” no Quiosque do Pesqueiro .
Então apareceu a oferta para que cantássemos no calçadão da praia Martim de Sá. Eu fiquei meio indeciso, meio inquieto, porém cedemos à insistência. O repertório seria o mesmo. No quiosque tocávamos para cerca de oitenta pessoas, mas eu me indagava: Como será no calçadão?” Esperávamos uma boa receptividade, afinal, nossa fama havia crescido velozmente. Apesar de sermos uma banda só de violão e teclado, éramos uma banda. Confiantes, ensaiamos bastante e nos preparamos para aquele grande dia.      
Nós não éramos os únicos a apresentar naquela noite. Ficamos sabendo que, por sermos iniciantes, abriríamos o show do grupo “Popozuda na Lata”. Para falar a verdade, fiquei bastante decepcionado.
Quando chegou a nossa vez, juntamos coragem e subimos ao palco. O calçadão estava lotado. Meu estômago se contorcia de nervoso, Petrus tremia.
Apresentei-nos, saudei a todos, e começamos a tocar. Contudo, as pessoas não  estavam interessadas em nosso estilo de música, elas queriam agitação. Todos, em uníssono, começaram a gritar: “Cadê a Popozuda?” “Queremos Popozuda!” “Fora!” “Popozuda!” “Popozuda!”.
Eu não estava entendendo bem a situação, nunca passara por algo assim. Pensei em continuar cantando, até que uma lata de cerveja voou e acertou Petrus em cheio na cabeça. Vendo meu amigo cobrindo a testa com a mão, numa careta de dor, a revolta borbulhou em meu peito. Olhando para aquelas pessoas que gritavam pela “Popozuda”, veio-me a inspiração, e bradei no microfone:

CINZAS

Não estamos aqui para sermos trocados
Não nos compare a lixos mortais.
Os meus valores aumentaram
Dou aos porcos, mas não lhes dou as minhas cinzas.
A escolha não é minha, poderia lhes dar a minha obra,
Mas escolheram o resto, para mim resto não serve.
Sinceramente, não calo minha inspiração
Estou escolhendo um novo rumo,
Sei que não é fácil o caminho dos mestres
Mas vejo pobreza  neste lugar.
Vejo arte em minhas trevas, que foram banidas de suas terras
Mas não me peçam  para voltar
As suas ações silenciaram  por um segundo minha poesia
Tenho o resto do tempo a meu favor.

            O silêncio do público foi a resposta que eu esperava. Saí de lá para nunca mais voltar. Certamente as pessoas nem entenderam o meu discurso, mas logo suas expressões  interrogativas deram lugar ao frenesi de “Popozuda na Lata”. Era isso que queriam ouvir, é nisso que muitos se espelhavam.
            Saímos de lá despedaçados. Eu deveria ter ouvido meu coração e não ter ido ao calçadão. Mas o sonho da fama falara mais alto. Na saída, um grupinho conhecido nosso estava nos esperando e pediu-nos para tocar no Quiosque do Pesqueiro. Mas estávamos tão deprimidos e frustrados, que sabíamos que não teríamos condições para cantar depois daquilo que acontecera.
            Passei um bom tempo pensando: “Será que nossas canções são um lixo? Será que não entendemos nada deste mundo? A música tem que atrair pelo ritmo, pela letra ou por dançarinas de grandes nádegas expostas?” Petrus também estava desanimado.     
            Na semana seguinte, Sr Hook telefonou-me dizendo que nos esperava para próxima  sexta-feira. Com muito custo aceitamos. Na verdade, só concordamos porque sabíamos que no Quiosque do Pesqueiro haveria pessoas interessadas em nossas canções. Petrus queria jogar tudo para o alto, mas resolvemos arriscar mais uma vez.
            Naquela sexta, o dia amanheceu nublado, à tarde choveu, e estávamos prestes a desistir de nosso compromisso, achando que ninguém sairia naquela chuva. Mas, como compromisso é compromisso, fomos só para não faltar com nossa palavra.
            Chegamos ao Quiosque duas horas mais cedo, sempre gostávamos de repassar as músicas, para que não acontecesse nenhum imprevisto.
            Em uma hora terminamos tudo, e resolvemos dar uma volta na praia, esperando que as pessoas chegassem, tendo visto que parara de chover.
            Quando voltamos, vimos muitos carros estacionados próximos ao Quiosque do Pesqueiro e qual não foi a nossa surpresa quando uma adolescente, aproximando-se de nós, pediu um autógrafo!
            Já dentro do quiosque, olhamos assustados as dezenas de pessoas que estavam chegando. Pareciam vir de todos os lados, uma multidão se espremia dentro e ao redor do Quiosque. Parecia que “metade” da cidade estava lá, umas trezentas pessoas, talvez, nunca tínhamos visto tanta gente no Quiosque do Pesqueiro!
            Sr. Hook estampava um sorriso de orelha a orelha, mas nós, com o incidente do calçadão ainda fresco na memória, olhávamos nosso público com desconfiança. Não teríamos estrutura para agüentar outro insulto.
            Quando subimos ao palco, um grupo de pessoas começou a cantar “Amanhã  é um novo dia, vai ser melhor...” Eu prendi a respiração, Petrus tinha lágrimas nos olhos. Com a voz embargada, Petrus começou a cantar “ Pé Esquerdo”, acompanhado pela multidão, eu logo entrei com o violão, pois a emoção não me permitia cantar. Ao fim da canção, todos gritavam e aplaudiam. Tocamos todo o nosso repertório e, enquanto cantávamos “Lindo”, notei que as nuvens carregadas de chuva davam lugar a estrelas cintilantes. Lá estava ela, novamente a sorrir para mim. Quem sabe aquilo não fosse um lembrete da esperança...
            Em meio a gritos, assobios e palmas, terminamos nosso repertório. Sob o olhar interrogativo de Petrus, pedi silêncio às pessoas. Disse-lhes que queria ensiná-las uma nova música. Petrus se assustou, pois já havíamos encerrado nosso repertório, e tínhamos combinado nunca improvisar no palco, com medo de que algo pudesse dar errado.
            Não me importando com seu olhar reprovador, comecei a cantar:

Somos Nós

Propaganda de biquíni não tem mulheres nuas
Cachorro de raça não anda sozinho na rua
Finais de novela nem sempre tem sentido
Os bandidos não matam as mocinhas,
Esperam pelo seu próprio destino.

Será que os homens sabem o que é amor?
Ou só sabem o que é paixão?

Toda vez que cai o pão, lambuza o chão
E o ônibus que você espera, demora a chegar
É tudo tão óbvio, basta só se acostumar
E ao olhar a vida, aproveite o dia
O ontem já se foi, o amanhã ainda pode demorar.

            Terminamos o show com muitas aclamações, e com nossa auto-estima elevada às alturas. Ficamos um pouco mais no quiosque, sentados à mesa, poucas eram as palavras, o contentamento falava tudo.
            Foi quando percebemos que um senhor usando uma capa de chuva preta nos olhava insistentemente. Dirigi-lhe um sorriso amigável e ele então levantou-se e veio até a nossa mesa. Mostrando-nos seu cartão, apresentou-se como Sr Boanerges. Era um sujeito meio esquisito, de poucas palavras, gordo, alto, de bochechas vermelhadas e um sorriso enigmático.
            Quando Sr. Boanerges nos fez sua proposta, quase caí  de costas. Minha vista ficou turva, as vozes soavam distantes, e meu coração parecia querer sair do peito. Gravar nosso primeiro disco! Era demais para uma só noite! Disfarçadamente, dei um beliscão em minha perna, mas não estava sonhando - Sr. Boanerges estava ali, em carne e osso, fazendo-nos uma incrível proposta.
            Sr. Boanerges era um empresário, dono de uma gravadora em São Paulo. Viera passar suas férias em Caraguatatuba e, por coincidência, passara perto do Quiosque do Pesqueiro quando estávamos apresentando. Ouviu, parou, gostou. Queria investir em nós.
Era nosso sonho, uma oportunidade singular! Mas havia alguns pequenos problemas: não éramos uma verdadeira banda. Necessitaríamos de pelo menos um baixista e de um baterista. Foi nos dado o prazo de um mês para organizarmos tudo. A outra exigência foi que trocássemos o nome de nossa “banda”: “Aldebaran soa muito esquisito” dissera-nos ele.
            Petrus e eu ficamos de dar-lhe uma resposta, esse contrato poderia ser uma grande chance para a nossa carreira. Infelizmente, para isso, teríamos de abrir mão de várias coisas que eram importantes para nós, como trocar as amadas praias e nossas aconchegantes casas pela metrópole do Brasil, São Paulo.